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Anarquia: a mais alta expressão da ordem.
February 25

Nazis na wall Street

AS RELAÇÕES ENTRE AS MUL TINACIONAIS NORTE-AMERICANAS E O III REICH (*)

 

(*) Artigo extraído do n° 65 de Amor y Rabia, publicação anarquista de Valladolid, Espanha.

 

COCA-COLA ÜBERALLES

 

Como é sabido, a Coca-Cola sempre se apresentou como um símbolo dos EUA e dos seus valores "democráticos"; porém, trata-se mais de uma engenhosa mentira publicitária do que de uma realidade. De facto, a Coca-Cola foi uma dessas grandes companhias americanas que, pelo menos indirectamente, colaboraram com o regime nazi.

 

Para começar, a popular empresa norte-americana, com base em Atlanta (Geórgia), vendeu milhões de garrafas do conhecido refresco entre 1933 e 1945, violando as normas aliadas que impediam o comércio com a Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Mas a sua falta de escrúpulos não ficou por aí. Desde Dezembro de 1941, a empresa convenceu os americanos de que o seu produto era o símbolo da luta contra os inimigos da liberdade e da democracia. Porém, o certo é que, sendo a Alemanha o segundo maior mercado desta bebida refrescante (a seguir aos próprios EUA), a Coca-Cola encontrou a forma de manter os seus lucros neste país, apesar da política imperialista e genocida conduzida pelo seu governo. Já desde os tempos turbulentos da República de Weimar que os alemães encaravam a Coca-Cola como a ponta de lança de um certo tipo de colonialismo norte-americano na Europa. Por isso, a Coca-Cola teve que, primeiro, mudar a imagem que o consumidor médio alemão tinha do seu produto e, a seguir, vencer empresas concorrentes alemãs (como a Sinalco ou a Agri-Cola) que fabricavam imitações do mais famoso dos refrescos de cola. Se, em casa, a publicidade da empresa tinha que identificar-se com os valores imperantes na sociedade norte-americana, na Alemanha, a Coca-Cola tinha que adequar-se aos princípios ideológicos impostos pelo III Reich à sociedade alemã.

 

Uma peça chave neste processo foi Max Keith (na altura representante da empresa de refrescos), personagem descrito por alguns dos seus ex-empregados como um líder carismático e autoritário. Keith depressa percebeu que, para conquistar o mercado germânico, tinha que estar nas boas graças dos governantes da nação; por isso, começou por distribuir generosos subornos a diversos governantes nazis. Assim, em 1936, quando Goering introduziu um plano quadrienal para reduzir ao mínimo as importações alemãs e falharam todas as negociações conduzidas pelos advogados da empresa norte-americana, Keith autorizou a entrega de dinheiro a este chefe nazi. Graças a isso, a Coca-Cola conseguiu uma licença especial de importação que salvaguardou a sua quota de lucros na Alemanha. Max Keith convertera-se no homem da Coca-Cola por excelência, assim como num colaborador dos nazis, disposto a fazer o que quer que fosse que estes pedissem, desde que vendesse o seu produto.

 

Com as coisas neste pé, a Coca-Cola tornou-se, nesse mesmo ano, numa das três bebidas patrocinadoras dos Jogos Olímpicos de Berlim, um evento que o III Reich explorou para promover a sua ideologia racista e autoritária. A boa sintonia existente entre a Coca-Cola e o regime de Hitler foi algo que pôde ser comprovado por todos os que visitaram Berlim durante tão magno acontecimento, dado que em muitas imagens do Führer, que apareciam em cartazes publicitários e revistas, surgia também o logotipo do conhecido refresco incitando o público a beber Coca-Cola “eískalt” [=’muito fria’]. A partir daí, a Coca-Cola chega ao coração do nazismo e inclusivamente, em Outubro de 1938, numa revista militar que celebrava a anexação dos Sudetas pela Wehrmacht [='exército alemão'], podia ver-se um anúncio no qual uma mão segurava numa garrafa de Coca-Cola, com um mapa-mundo como fundo e que rezava: "Ja, Coca-Cola hat weltruf [='Sím, Coca-Cola: tem fama mundial'] Isto equivalia a dar um apoio tácito ao exército nazi e às suas conquistas.

 

A empresa americana estava a adquirir uma popularidade tal no mercado alemão, que Karl Flach (chefe duma das suas rivais alemãs, a Afri-Cola) começou a fazer circular panfletos nos quais aparecia uma garrafa de Coca-Cola com caracteres hebreus que diziam que o refresco americano era "Kosher" [=’apto para ser consumido por judeus’] e um texto, que assegurava ser a Coca-Cola uma empresa dirigida por judeus. Apesar disso, o prejuízo foi temporário, pois a empresa americana contra-atacou de imediato. E como? Com uma campanha propagandística, que afirmava exactamente o contrário, através da publicação de vários anúncios, nos quais defendia posições anti-semitas, no Stuerner, publicação oficial do partido nazi conhecida pelos seus artigos racistas. Estes anúncios não passaram despercebidos nos EUA, tendo originado alguns títulos do género "Coca-Cola financia Hitler" na imprensa norte­-americana.

 

Durante a guerra, a Coca-Cola pôde enfrentar as restrições decorrentes do conflito bélico, recorrendo ao seu habitual oportunismo. Assim, quando, na Alemanha, foi restringida a utilização do vidro devido ao embargo aliado, a empresa de refrescos abriu fábricas na região dos Sudetas, em 1939, sob a protecção dos chefes nazis locais, visto que esta região estava fora do cerco económico. Desta forma, a Coca-Cola ludibriou o boicote ao III Reich. Além disso, a companhia norte-americana tão-pouco teve quaisquer problemas em que os seus camiões transportassem tropas alemãs em múltiplas ocasiões. Nem sequer no período mais aceso da contenda bélica, em que alguns dos ingredientes secretos da mais popular bebida não conseguiam chegar à zona sob controle nazi, a companhia deixou de fabricar bebida: nessa altura, Keith e a sua equipa de colaboradores inventaram a Fanta e a empresa Coca-Cola continuou a vender sem se importar nada com isso. Este facto pode ser testemunhado por alguns sobreviventes dos campos de concentração nazis, pois trabalharam como mão-de-obra escrava nas fábricas que a Coca-Cola mantinha em funcionamento nos territórios dominados pelo Reich alemão.

 

 

OS SEGREDOS DA IBM

 

Ainda não há muito tempo, na primavera de 2001, um autor chamado Edwin Black publicou um livro intitulado IBM and the Holocaust (A IBM e o Holocausto), facto que deu lugar a uma forte polémica nos Estados Unidos. Segundo Black, filho de judeus sobreviventes do holocausto, a IBM, empresa pioneira do sector informático, teve igualmente a sua parte de responsabilidade no genocídio levado a cabo pelos nazis. A obra, para além de surpreender por pôr em causa a até então inquestionável honestidade da companhia, veio também animar a luta dos sobreviventes dos campos de concentração que actualmente vivem nos Estados Unidos contra as empresas americanas que colaboraram com os nazis. Em que consistiu então a responsabilidade dessa prestigiada firma informática?

 

Como é do conhecimento geral, quando os nazis chegaram ao poder ainda não existiam os computadores, mas já existia a IBM. Nas décadas que precederam o desenvolvimento dos computadores, a informação processava-se usando métodos mecânicos em vez de electrónicos, como sucede hoje em dia. Um desses métodos era baseado nos cartões perfurados de Hollerith. Herman Hollerith foi um americano de origem alemã que desenvolveu uma técnica para calcular o censo dos Estados Unidos através de cartões perfurados que eram lidos por uma máquina. Este método obteve um tal êxito que de imediato Hollerith criou, praticamente a nível mundial, um monopólio de aluguer e venda de máquinas leitoras a governos e grandes empresas. Em 1911, a companhia de Hollerith fundiu-se com a Computing-Tabulating-Recording Cornpany (CTR), à frente da qual estava Thomas Watson. Mas em pouco tempo se transformou na International Business Machines (IBM).

 

Entretanto, em 1922, numa Alemanha afundada em plena crise económica, Watson acedeu ao controlo da Dehornag (Deutsche Hollerith Maschinen Gesellschaft), a qual usava a técnica dos cartões perfurados sob licença. E é esta, conforme argumenta Black, a peça chave na relação entre a IBM e o regime nazi. Segundo esse autor, Watson não era exactamente um fascista, antes sim um empresário autoritário e disposto a fazer dinheiro fácil, pondo de lado quaisquer considerações morais. Watson, de facto, era conselheiro do presidente Roosevelt e ocupava um cargo no Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas não podia deixar passar a oportunidade de comerciar com a Alemanha nazi. Tendo Hitler, em 1933, começado a elaborar um censo que tinha como fim identificar os alemães de origem judia, a filial da IBM na Alemanha não teve qualquer problema em colocar a sua tecnologia ao serviço desse objectivo. A IBM, segundo Black, fazia-se passar por empresa alemã, apesar de a empresa­-mãe, nos Estados Unidos, continuar a manter, mesmo durante a guerra, o controlo sobre ela. Desse modo, desrespeitava o bloqueio económico imposto à Alemanha pelos aliados. Black sustenta mesmo que Watson chegou a falar favoravelmente do III Reich em público, o que explica ele ter recebido do governo nazi a Cruz da Águia Alemã.

 

 

Em 1933, o regime nazi levou a cabo um outro censo nacional, com o qual se pretendia detectar, de forma já definitiva, a ascendência judia de milhares de cidadãos alemães. Sem dúvida que esse empreendimento foi posto em prática graças às máquinas de cartões perfurados da Dehomag. Um pouco mais tarde, em 1938, e pouco tempo antes de os nazis anexarem a Áustria, a filial da IBM em Viena, sob a supervisão do conhecido nazi Adolf Eichmann, dedicou-se também à identificação da população de origem judia. Este tipo de censo incluía um cartão, o chamado "cartão suplementar"', que denunciava o grau de "ascendência judia" de cada família. A Dehomag soube até antecipadamente que Hitler se preparava para a guerra, pois a companhia já tinha previsto como proteger a sua maquinaria em caso de ataque.

 

Com o início da guerra, a IBM assistiu a um tremendo aumento dos seus proventos graças aos seus negócios na Alemanha e em zonas ocupadas por ela no Leste europeu. O que não é de estranhar, pois a máquina de guerra nazi precisava mais do que nunca da tecnologia baseada nos cartões perfurados da IBM para gerir o equipamento do exército e a rede ferroviária que possibilitava o transporte dos prisioneiros para os campos de concentração, para além dos já mencionados censos. Tudo isso, é óbvio, poderia ter sido realizado sem a tecnologia da IBM, mas nunca de uma maneira tão eficiente.

 

Após a guerra, a IBM recolheu a sua maquinaria e os avultados benefícios económicos obtidos, sem qualquer problema de consciência. Para mais, as máquinas estavam praticamente intactas. Este facto deveu-se a que, em primeiro lugar, estavam protegidas pelas leis que a Alemanha aplicava às propriedades de empresas de países inimigos, o que até obrigava à nomeação de guardas que tomassem conta delas. Por outro lado, se as máquinas caíssem nas mãos dos aliados também eram protegidas, pois os cartões continham provas das atrocidades cometidas pelos nazis. Por último, em 1949, a Dehomag passou a chamar-se IBM Alemanha.

 

Nem é preciso dizer que a IBM se sentiu muito incomodada pelos trabalhos de investigação de Black, que tachou de difamatórios. A IBM, que contou com a ajuda de grandes media, como o New York Times, defendeu-se argumentando que a Dehomag tinha passado totalmente para as mãos dos nazis durante a guerra. Mas mesmo que isto fosse verdade, nem por isso a IBM ficaria eximida da sua, cumplicidade em relação á detecção de judeus através dos censos feitos por meio dos cartões perfurados, assim como também não pode negar o facto de ter lucrado imenso com os lucros gerados, durante a guerra, pela tecnologia de Hollerith. Numa recensão sobre o livro de Black, publicada em Março de 2001 pelo New York Times, é-nos assegurado que a companhia desconhecia o uso que os nazis iam dar a esse sistema de processamento de dados. Mas sem dúvida que a base de dados que geria os censos era uma base de dados “feita à medida”, para a qual a empresa teve de ter de antemão um conhecimento detalhado dos fins que o seu cliente procurava obter.

 

(Tradução de A. Mota e P. Ferreira).

 

January 18

Concentração na Amadora

CONCENTRAÇÃO CONTRA A REPRESÃO POLICIAL, POR KUKU E OUTRXS VÍTIMAS DOS MERCENÁRIOS DO ESTADO.

Sábado, 17 de Janeiro, a concentração motivada pelo assassinato policial de Kuku na Amadora juntou cerca de 500 pessoas, em frente da esquadra de São Brás onde o assassino exercia o seu papel de mercenário. Por duas horas gritou-se palavras como “assassinos”, “racistas”, “escravos fardados, terroristas do Estado”, “mercenários” entre outras palavras de revolta. Acudiram à concentração familiares do jovem assassinado, habitantes do bairro que confirmavam que são frequentemente alvo da violência policial e outra gente solidária dos arredores da Amadora

A concentração decorreu num ambiente de alguma tensão e muita raiva. Ao redor da esquadra foi montado um perímetro de segurança e os policias, equipados com coletes à prova de bala, não mostravam mais que desprezo e inclusive riam-se. Alguns jovens mais inconformados com o tom pacifico da manifestação atiraram pedras à esquadra no inicio e no final, tendo uma policia sido alcançada por uma pedra. Logo os policias retiraram-se para o interior da esquadra ficando apenas um policia visível.

Alguma da revolta também foi dirigida aos jornalistas, tendo sido também gritado “Diário de Notícias, Diário da policia”, referindo-se à campanha que os meios de informação burgueses têm feito contra todos os movimentos de protesto e contra as pessoas que habitam nos bairros sociais. Os meios de comunicação, aproveitando o assassinato de Kuku, têm tentado unir acções de movimentos distintos como o “Verde Eufemia” http://gopetition.com/online/21252.html  e às manifestações contra toda a autoridade, que são constantemente alvo de desinformação, a traficantes de droga ligados a claques de futebol, acusando todos eles como “anarquistas violentos de estrema esquerda” tentando moldar a opinião publica.

No final da concentração, um grupo roubou alimentos e atacou à pedrada uma loja da cadeia de supermercados Minipreço, perto da esquadra, que tinha um agente da PSP de serviço à porta. Este grupo fugiu em menos de um minuto que foi o tempo de vários carros da policia chegar ao local, não tendo sido feita nenhuma detenção.

A policia Judiciária já confirmou que Kuku foi executado na cabeça a apenas dez centímetros, contrariando a versão inicial apresentada pela PSP. O assassino já não está de serviço mas ainda não foi dado qualquer esclarecimento aos familiares da vitima.

Para mostrar o nervosismo policial que existe em Portugal pode-se ver o que se passou no dia anterior em Almada (http://redelibertaria.blogspot.com/2009/01/carregamento-policial-na-zona-pedonal.html).

December 17

Dia de acção contra os Estados assassinos 20 Dezembro

É evidente que este levantamento na Grécia não é só uma resposta em honra de Alexandros Grigoropoulos, de 15 anos de idade, companheiro, que foi assassinado a sangue frio, com uma bala por um polícia na zona de Exarchia no sábado, 6 de dezembro de 2008.

 

Ver vídeo do assassinato

 http://www.youtube.com/v/jwjzhcmolua&hl=es&fs=1

 

É evidente o que se passa na Grécia é devido aqueles que quando abrem os olhos já não podem dormir

 

É evidente que a raiva da população cresceu rapidamente apesar das tentativas dos meios de comunicação e do governo de confundir a opinião pública. Manifestações espontâneas e distúrbios explodiram no centro de Atenas, e espalharam-se rapidamente a outras cidades. Os ataques contra o Estado e objectivos capitalistas acontecem em todo o lado, Salónica, Patras, Volos, Chania e Heraklion, em Creta, em Giannena, Komotini e muitas outras cidades.

 

É evidente que Bancos e carros destruídos, não é nenhuma violência quando comparado com trabalhar sem parar durante 40 anos e perguntares-te se poderás te aposentar algum dia. É evidente que grandes lojas saqueadas, não é nenhuma violência quando comparado com as Bolsas, as pensões de miséria e as hipotecas que liquidamos ao dobro do preço. É evidente que Esquadras de polícia atacadas e ocupadas, não é nenhuma violência quando comparado com o desemprego, a precariedade, os salários de 700 euros ou menos e tomar Prozak e vitaminas para poder aguentar às horas extras. É evidente que universidades ocupadas e as ruas a servirem de palco para batalhas campais entre polícia e manifestantes é uma maneira excelente e bem vinda de tentar mudar a violência que são os "acidentes" de trabalho, porque os patrões reduzem os custos de segurança dos seus trabalhadores, a violência do direito de seres despedido  e abandonado quando não sirvas mais, a violência de ser um imigrante e viver com medo de ser deportado a qualquer momento e viver numa insegurança constante e ser Mãe, trabalhadora e dona-de-casa ao mesmo tempo, e ser violentada moral, económica e sexualmente e pedirem-te para sorrires porque tudo está bem, o mundo está muito bem feito e tu não podes fazer nada... Uma merda é que isso é evidente.

 

É evidente que sindicatos, partidos, padres, jornalistas e empresários estão decididos a manter esta violência, mas também é evidente que a revolta dos estudantes, dos abandonados, dos trabalhadores temporários, dos imigrantes, de todos os que sentem na pele o triste destino a que nos querem condenar não deve parar!

 

Como é evidente os Anarquistas e antiautoritários fazem apelos aos cidadãos para realizar assembleias, mas em muitos lugares há um clima de terrorismo, já que agentes secretos junto com fascistas estão a vigiar e a atacar as pessoas e inclusive saqueiam pequenos comércios, assaltam literalmente cidadãos gregos e culpabilizam os revoltosos, alguns desses agentes já foram perseguidos e surrados, mas num programa com um apresentador famoso desmascaram esta manobra da policia.

Ver vídeo do programa

http://www.youtube.com/watch?v=HpkGxdfoTUM

 

Os que forem feitos prisioneiros, de acordo com as últimas notícias, será aplicada a nova lei antiterrorista grega como também é evidente.

 

Evidentemente que dezenas de manifestações em apoio e solidariedade com a revolta na Grécia, aconteceram por diversas cidades europeias e em algumas cidades dos Estados Unidos, tendo já diversas pessoas sido detidas.

 

Na Grécia o que se tenta fazer é evidentemente uma Revolução... e as Revoluções são contagiosas.

 

Dia 20 é um dia internacional de acção contra os Estados assassinos.

 

Não perdoamos nem esquecemos.

 

Aconcelhamos o acompanhamento do desenrolar dos acontecimentos em:

  Occupied London blog | Center for Strategic Anarchy blog | Libcom.org archive

 

 

 

PEDEM CASA DIGNA E DÃO-LHES PRISÃO. SOLIDARIEDADE.

Na tarde de 14 de maio do ano 2006 ergueu-se em Madrid um movimento espontâneo convocado por sms e Internet, para queixar-se da dificuldade de ter acesso a uma casa digna, que hoje em dia ainda continua de pé. Tanto nessa altura como agora estas assentadas não têm nenhuma sigla , nenhum grupo, conjunto ou partido político. Visto o bom acolhimento e a participação que houve desde a primeira assentada, as autoridades preocuparam-se muito, já que enfrentavam-se com um grave problema: o cidadão comum começava a sentir-se identificado com um movimento desorganizado, o qual corria o risco de organizar-se e aumentar em número, pondo em xeque o governo com suas demandas. Foram então enviados vários centenas de policias antidistúrbios, com ordens para dissolver quanto antes a manifestação, para o qual não evitaram utilizar de violência impune e desmedidamente.

Como consequência produziu-se um total de 21 detenções arbitrárias com acusações de atentado contra os agentes da polícia, desordem pública, desobediência, resistência grave à autoridade... por isto eles enfrentam penas até sete anos de prisão. Ademais de injustificadas, estas acusações estão cheias de contradições e irregularidade, como polícias que apresentaram relatório médico de lesões depois de destroçar os nós dos dedos na cara dos detidos... Estas pessoas sofreram danos físicos e morais durante todas as horas que durou a sua detenção, ocasionados pelos antidistúrbios, pela brigada de informação, guarda civil, funcionários de prisões, assistentes a detidos, juiz... Gritos, insultos, vexações, torturas, perda de dignidade... isto é ao que enfrenta qualquer pessoa, seja inocente ou não, quando cai nas garras do Estado, algo que a sociedade não vê ou não quer ver. Todo isto em uns calabouços onde as condições higiénicas eram humilhantes até limites insuspeitos, onde o médico que reconhecia as feridas nem sequer lhe tocava... depois que passaram horas sem comer e sem dormir, e com a proibição de falar ou rir ou perguntar nada, nem sequer a hora. Tratados como terroristas e trasladados como terroristas, inclusive chegou-se a roubar os pertences dos detidos.

É habitual que se passe isto assim como o que se passou nestas assentadas. Brutal e injustificada repressão, e medidas muito duras contra as pessoas detidas. Os meios de comunicação não informam sobre este acontecimento, criminalizam-se estas pessoas e são detidas. Todo isto é muito preocupante, já que está escondido sob um pluralismo só de fachada e um governo supostamente progressista a favor dos direitos da juventude e da política social.

A especulação e a corrupção são produto da ofensiva capitalista, que no estado espanhol significa entre outras coisas a negação de uma necessidade básica como é a necessidade de viver com dignidade.

NÃO MAIS PRECARIEDADE!!

NÃO MAIS ESPECULAÇÃO!!

NÃO MAIS MONTAGENS POLICIAIS E JUDICIAIS!!

ABSOLVIÇÃO DXS DETIDXS DAS ASSENTADAS!!

 

ÚLTIMA HORA!! A promotora acusou aos nossos companheirxs detidxs na 2ª assentada por uma vivenda digna (xs únicxs que ainda continuam pendentes de juízo e que poderiam ir a prisão até 5 e 6 anos)
Podem ver a acusação na nossa página web:
www.detenidosporunavivienda.org.
Agora mais que nunca pedimos a sua ABSOLVIÇAO!!!
 
Mais informação em:
 
www.detenidosporunavivienda.org

www.myspace.com/detenidosviviendadigna 

http://detenidosvivienda.blogspot.com/

 
August 29

Solidriedade com Federico Puy

Pela readmissão de Federico Puy, professor despedido pela Cruz Vermelha na Argentina por motivos ideológicos

 

No dia 28 de Maio, a filial da Cruz Vermelha Internacional no Bairro de Saavedra, em Buenos Aires, na Argentina, despediu sem causa o docente Federico Puy, que leccionava as matérias de Educação Cívica e Língua e Literatura ao primeiro e ao terceiro anos do Bacharelato para adultos com orientação em Saúde, que ali funcionava.

A boa disposição do professor, a identificação que conseguiu com os seus alunos e os conteúdos ensinados em matéria de direitos humanos, enfureceram as autoridades do estabelecimento que despediram o docente, actuando desta forma como na época da ditadura militar, coarctando a liberdade de expressão e de escolha dos professores.

Para além de submetido à precarização laboral, Federico Puy não recebeu qualquer pré-aviso de despedimento, nunca lhe foram mostrados os pagamentos realizados e foi-lhe alterado o momento de entrada no estabelecimento, para poder fazer uso do período de experiência e despedi-lo.

Questionaram-lhe a planificação anual, aludindo a que “tinha muita carga ideológica”, obrigando o docente a retirar das unidades temáticas das sua aulas de Educação Cívica conteúdos referentes aos Direitos Humanos e à história dos sangrentos Estados totalitários da história contemporânea, alegando que não eram temas que os alunos devessem conhecer. Também o proibiram de falar de Sindicalismo e Peronismo nas aulas, tendo-lhe sido proposto que, em alternativa, leccionasse as Encíclicas Papais referentes ao tema. Convém sublinhar que o Ministério da Educação da Argentina promove e permite que se fale dos Estados totalitários e do sindicalismo nas aulas.

Os estudantes realizaram uma petição exigindo a reincorporação do professor despedido e pediram explicações às autoridades do estabelecimento, a resposta por parte da direcção da Cruz Vermelha (filial de Saavedra) foi o início de uma perseguição aos alunos, caindo em discriminações raciais e xenófobas.

Este é um caso de discriminação ideológica e uma pequena mostra de que na sede de Saavedra não se respeitam as bandeiras de humanidade erguidas pelos milhões de voluntários e colaboradores da Cruz Vermelha Internacional, sempre presentes, prestando a sua solidariedade, nos locais onde têm lugar as catástrofes políticas, sociais e ambientais. Além do mais, demonstra a precariedade laboral e o autoritarismo, coarctando a liberdade de expressão e a liberdade de ensino pelas quais tanto lutaram milhares de pessoas nas épocas mais duras da história da Argentina.

 

BASTA DE DISCRIMINAÇÃO IDEOLÓGICA!

REINCORPORAÇÃO IMEDIATA DO PROFESSOR FEDERICO PUY!

Informação recebida através da Federación Obrera Regional Argentina, secção argentina da

Associação Internacional dos Trabalhadores www.iwa-ait.org
internacional
April 25

Trabalhadores contra a repressão policial

A democracia desmascarada:

AUMENTA A REPRESSAO

SOBRE AS LUTAS SOCIAIS

 

Ao mesmo tempo que se degradam as condições de vida da maioria da população, as fatias da riqueza criada através da exploração do trabalho são cada vez mais desigualmente distribuídas, cabendo a uma pequena elite de administradores e accionistas das grandes empresas e, particularmente, da banca a parte de leão. Perante esta situação de injustiça e miséria crescentes, sendo de esperar o aumento exponencial da contestação social, que já se começa a verificar, ainda que os media o queiram encobrir, o Estado reforça os seus meios de repressão, e os diversos corpos policiais agem cada vez mais dura e impunemente, controlando, vigiando e reprimindo os movimentos e as lutas emergentes.
Não nos deve espantar que os meios policiais sejam utilizados para defender a propriedade privada e os interesses dos patrões contra os dos trabalhadores. É essa a função essencial do Estado, que a morte lenta das suas políticas sociais vai deixando de novo a descoberto.
 
Mas o ambiente repressivo não é da exclusiva responsabilidade do Estado, vigora também nos locais de trabalho, onde a crescente precarização tornou impossível, para quem quer manter o seu ganha ­pão, erguer a mínima voz de contestação. E este ambiente repressivo continuará a fortalecer-se enquanto não formos capazes de opor ao poder e à bufaria uma forte barreira de solidariedade e acção.
Só a solidariedade entre as pessoas da mesma condição social, vítimas da repressão estatal e patronal, e a prática da acção directa contra os que nos exploram e oprimem podem fazer avançar a nossa luta, a luta por uma vida melhor em liberdade.
 
 
Associação Internacional d@s Trabalhador@s - Secção Portuguesa

http://ait-sp.yoll.net

 

Alguns casos recentes de repressão policial e judicial

 

 -25 de Abril de 2007 - O Corpo de Intervenção da PSP carregou sobre uma manifestação anti-autoritária contra o fascismo e o capitalismo em plena Rua do Carmo em Lisboa, com o claro objectivo de agredir o maior número de manifestantes. Onze manifestantes foram detidos e são agora acusados de "agressões e injúrias a agentes da autoridade".

 

 -Julho de 2007 - Várias pessoas que se manifestavam no Porto contra: o corte de carreiras da STCP foram identificadas pela polícia e vieram a ser constituídas arguidas por "manifestação ilegal".

 

 -17 de Janeiro de 2008 - Um sindicalista foi condenado pelo Tribunal de Oeiras a 75 dias de prisão por "manifestação ilegal", devido à sua: participação numa manifestação de trabalhadores da construtora: Pereira da Costa, decidida em plenário pelos mesmos e não comunicada ao Governo Civil, em Janeiro de 2005. É a primeira pena de prisão por: "manifestação ilegal" em Portugal desde o 25 de Abril de 1974.

 

 -8 de Fevereiro de 2008 - A PSP carregou à bastonada sobre dezenas: de pessoas que protestavam contra o despejo do Grémio Lisbonense, associação cultural e recreativa situada na Baixa de Lisboa, através da ocupação da escadaria do prédio. Várias pessoas receberam tratamento: hospitalar e um jovem detido foi humilhado e espancado na esquadra.

 

 -6 de Março de 2008 - A GNR carregou sobre um piquete dos trabalhadores da Sisáqua, empresa que explora a Estação de Tratamento de Águas Residuais de Sines, quando estes se concentravam em frente aos portões da empresa. A greve protagonizada por estes trabalhadores, que reivindicavam melhores condições de segurança no trabalho, a melhoria do meio ambiente e aumentos salariais, durava há já um mês.

 - Março de 2008 - Na véspera da manifestação dos professores em Lisboa, agentes da PSP visitaram diversas escolas do país com o intuito: de saber quantos professores se deslocariam à manifestação.

 - Abril de 2008 - A simbólica acção do movimento Verde Eufémia contra o cultivo de organismos geneticamente modificados, realizada no Verão do ano passado, através da destruição de um hectare de uma plantação de milho transgénico em Silves, foi classificada pelas autoridades portuguesas como "acto terrorista" e incluída este mês no relatório da Europol sobre actividades "terroristas" na União Europeia.

 cops

April 24

Manifestação antiautoritária contra a repressão policial

Seguramente ninguém se lembra, mas em Abril de 2002 foi organizada uma manifestação contra a repressão policial. A razão poderá dever-se ao facto de termos sido completamente ignorados quer pelos meios de comunicação social, quer pela policia. É de lembrar que tal manifestação correu bem e sem qualquer incidente, provavelmente devido à não comparência dos corpos repressivos do Estado, que portanto, não espancaram ninguém.

Panfleto distribuído na manifestação contra a repressão policial de Abril de 2002

Europol, a Nova Policia Política

 

Poucas pessoas já ouviram falar da Europol e, das que ouviram, poucas sabem do que se trata realmente ou que poderes possui. Tristemente, o objectivo dos governantes parece ser esse mesmo: construir esta organização policial europeia em segredo, nas suas conferências e cimeiras, conferindo-lhe poderes bastante amplos em termos de controlo e repressão da dissidência política.


Criada em 1995, a Europol tem vindo desde então a ganhar uma série de poderes que, a nosso ver, a tornam numa nova polícia política ao serviço do regime democrático-capitalista. Desde 1999 que lhe foram conferidas competências no sentido da criação de uma unidade "anti-terrorista". E, logo na 1ª Conferência Anti-Terrorista da Europol, realizada em Madrid em Fevereiro de 2001, aprovou-se o Documento Madrid que, após a análise de "grupos radicais", propõe apoiar a iniciativa espanhola, italiana, grega e portuguesa de "investigação relativa ao terrorismo anarquista" e de impulsionar o estabelecimento de um "plano de recompensas ou incentivos económicos para aquelas pessoas que forneçam informações". Qualquer semelhança com uma polícia política e a sua respectiva rede de bufos não será pura coincidência.
A definição de terrorismo no âmbito da União Europeia torna-se oficialmente cada vez mais ampla e não se limita à actividade de pessoas integradas em grupos armados, mas a qualquer um que, uma vez qualificado como "anarquista" ou, no termo de sentido mais amplo, de "radical", se oponha ao pensamento único e pratique, ainda que sem a utilização de violência alguma, a dissidência política.


Ainda em Fevereiro de 2001, Espanha e Itália criam uma equipa conjunta de investigação sobre "terrorismo anarquista".
Em Junho de 2001, o Parlamento Europeu concorda em preparar três recomendações ao Conselho Europeu, propostas pelos dois maiores partidos políticos espanhóis (PP e PSOE): a urgente aprovação do Espaço Judicial Europeu (reconhecimento mútuo das resoluções judiciais), a tipificação comum do delito de terrorismo e a aprovação do mandato de busca e captura (o desaparecimento da actual processo de extradição).


"O ambíguo Conceito de Terrorismo, o Euro-mandato de busca e captura e o Espaço Judicial Europeu, implicam sem dúvida a arbitrariedade, o policiamento e a eliminação de recursos e garantias jurídicas e, definitivamente, a destruição da noção de delito político, que havia constituído o núcleo central do direito liberal continental depois da Revolução Francesa. É a produção em cadeia capitalista aplicada aos assuntos judiciais: o que importa é obter lucros, trata-se de automatizar e mecanizar, que os processos sejam rápidos, não importa nem como nem à custa do quê. Trata-se de eliminar os seus únicos obstáculos neste processo: as liberdades básicas, os advogados de defesa, os processos judiciais, os juizes recalcitrantes" segundo o advogado espanhol dissidente Endika Zulueta.


Em Julho de 2001, no rescaldo dos protestos contra o encontro UE-EUA em Gotemburgo e contra a cimeira do Banco Mundial em Barcelona, ambos fortemente reprimidos pelos corpos polícias, inclusive com balas reais em Gotemburgo, realiza-se em Bruxelas um conselho de Ministros da Justiça e do Interior da União Europeia sobre "Segurança das reuniões do Conselho Europeu e de outros eventos que possam ter um impacto comparável". Antecedendo a brutal repressão dos protestos protagonizados por 300 mil pessoas contra a reunião do G8 em Génova nesse mesmo mês de Julho, que resultaria na morte do manifestante Carlo Giuliani, no "desaparecimento" de outros tantos e em centenas de casos de espancamentos, tortura e detenções arbitrárias por parte dos "carabinieri" italianos, esta reunião de Ministros elabora cinco medidas de restrição de direitos fundamentais reconhecidos pelas Constituições estatais. Entre outras encontram-se a "possibilidade de aumentar as competências da Europol na elaboração de uma análise comum dos distúrbios", o "reforço e fomento de uma troca rápida e estruturada de dados relativos a manifestantes violentos com base em ficheiros nacionais", "medidas de expulsão de manifestantes", assim como o "impedir que pessoas reputadas como autoras de distúrbios à ordem entrem no país anfitrião do acontecimento".


Em Agosto de 2001, os Ministros do Interior da Itália e da Alemanha manifestam-se a favor da criação de uma polícia europeia anti-distúrbios que possa fazer frente aos crescentes protestos anti-capitalistas durante as cimeiras dos poderosos.


Em Setembro de 2001, o Parlamento Europeu debate a possibilidade de os Estados realizarem vigilâncias massivas do correio dos cidadãos, reconhecendo-se "a possibilidade de as mensagens poderem ser interceptadas quando esteja em perigo a segurança do Estado".
A presidência espanhola da UE, durante o primeiro semestre de 2002, tem feito tudo por concretizar todas as propostas possíveis de incremento da repressão sobre movimentos sociais e políticos anti-capitalistas. Logo em Janeiro deste ano, teve lugar em Madrid uma reunião de representantes de todos os estados da UE e das respectivas polícias sobre o uso das novas tecnologias em matérias policiais. Nesta conferência a proposta mais importante foi a do estabelecimento de um Centro de Alerta e Investigação Tecnológica à escala da União Europeia. O citado Centro, controlado pela Europol, não seria mais que o oficializar do controlo que a Europa policial tem sobre os cidadãos através das novas tecnologias, especialmente a Internet e o telefone móvel, tentando dar cobertura àquilo que, de todas as perspectivas, vulnera vários direitos fundamentais. No Estado espanhol, o responsável pela elaboração da proposta de criação do Centro, os corpos especiais criados para o efeito reconhecem estar a controlar a dissidência política através da Rede. Tanto os serviços de polícia como os da Guarda Civil dedicam-se a rastear as comunicações de oito servidores alternativos da Rede, pelo simples facto de difundirem comunicações do movimento anti-globalização.


As preocupações que aqui transmitimos são mais do que "paranóias" de "militantes radicais" ou baboseiras sem interesse para o comum cidadão. A situação repressiva está a tornar-se tão grave que já levou a insuspeita Amnistia Internacional a lançar uma campanha com o lema "Mais Europa, Mais Justa!", solicitando à presidência espanhola da UE que inclua os Direitos Humanos na sua agenda de trabalho, considerando que "o incremento da segurança na UE está a reduzir os Direitos Humanos", apontando como algumas das questões mais preocupantes as denúncias por maus tratos e torturas que se produzem no âmbito da UE.


Também a Statewatch, uma organização não governamental que vigia os atentados dos Estados europeus contra as liberdades cívicas, manifestou a sua preocupação face às tentativas dos líderes da EU tendentes à criminalização, não só das actividades anarquistas, mas de qualquer forma de activismo político anti-capitalista, desde os protestos anti-globalização até às simples manifestações sindicais.
Por isso nos manifestamos,

CONTRA A EUROPOL, CONTRA A REPRESSÃO POLICIAL, CONTRA UM SISTEMA QUE NOS DEVORA E CONVERTE EM ESCRAVOS!

banksy

 

April 22

Manifestação Antiautoritária Contra a Repressão Policial

 Manifestação Antiautoritária Contra a Repressão Policial
 
 Tenho de admitir, em criança, a imagem do Polícia fascinou-me. Via-os como heróis que defendiam o resto das pessoas dos bandidos, dos maus, enfim, do Diabo em gente e do Papão em pessoa. Agora é diferente, não gosto nada deles.
 
 Odeio-os a maior parte o tempo. Odeio a maneira como eles gozam as pessoas, o tratamento especial que dão aos negros, aos Punks, Freaks e a todos os ou­tros que não encaixam no mundo deles. Odeio­-os pelo que já me fizeram, pelo que já te fizeram e pelo que ain­da vão fazer (dali não se pode esperar nada).
 
 -Bem há polícias que são uns porcos; que são umas bestas. mas...
 
Aparece sempre um mas... Eu também conheço polícias que parecem ser fixes como pessoas, simpáticos, educados, bem cheirosos, atenciosos, mas não deixo de odiar a Polícia, apesar de serem como os cães, "os melhores amigos do homem".
 
 A Policia serve para manter o "status" desta sociedade, portanto não existe coisa como o policia bom, todo o polícia é mau. É uma inevitabilidade que recai sobre quem está na triste posição de defender uma lógica social podre, decadente e necessariamente violenta.
 
A função do polícia não é proteger as pessoas e fazer cumprir a lei, embora muitos deles acreditem ingenuamente que fazem isso; eles servem essencialmente de controlo social sobre os trabalhadores, pobres e alienados para benefício dos que têm o poder, bom ou mau esta é a função do polícia.
 
Somos levados a pensar que sem polícia todas as pessoas se matariam umas às outras, não haveria direitos para ninguém e tudo ficava imerso no mais obscuro caos. Se pensarmos um pouco a Polícia nem protege as pessoas nem a propriedade, pelo menos da classe média para baixo. Um polícia dificilmente apanha um criminoso em flagrante, portanto é raro protegerem as pessoas de um assalto, violação ou roubo. A maioria das vezes, o que fazem é prenderem um suspeito depois do acto e testemunharem contra ele em tribunal. Portanto, o máximo que fazem é proteger a propriedade dos Ricos.
 
 Para manter o "status", a bófia protege a propriedade dos Ricos mas também tem que controlar o comportamento de uma população inteira. "A primeira função dos polícias não é combaterem o crime, mas estarem prontos a manter a ordem social". O maior trabalho dos Chibos é manter a paz e certifi­carem-se que está "tudo em ordem". É por isto que os polícias concedem tanto tempo aos detalhes da sociedade, jovens com um aspecto diferente, bêbados, prostitutas, graffiters, ganzados e drogados, vadios, etc.
 
 Michel Foucault pôs as coisas mais ou menos desta maneira: A Polícia é como pó que cobre os eventos, acções, comportamentos e opiniões da sociedade, mas especialmente dos pobres.
 
 A Polícia certifica-se que as pessoas obedecem às regras, mas sob o Capitalismo as regras são injustas. Elas. são feitas para beneficiar uma pequena minoria e explorar o resto, para além disso, algumas pessoas são definidas como bandidos pelo que são e não pelo que fazem e o trabalho da Polícia é reprimi-los constantemente. Onde a Polícia moderna apareceu, em Inglaterra, a classe criminosa era o proletariado urbano, hoje, grande parte do proletariado está alienado ou domesticado, então as vítimas são imigrantes, jovens, artistas e outros que não deixaram morrer a rebeldia; de qualquer maneira são de classes exploradas e não encaixam no "status" e estereótipos vigentes.
 
 É necessário apresentar a Polícia como uma instituição das mais opressivas na vida de muitas pessoas. É difícil encontrar alguém rebelde, revolu­cionário ou simplesmente inconformista, que não tenha sido preso, assaltado ou espancado pela polícia; a maior parte das vezes, não se trata do que aconteceu ou não, mas, de quantas vezes.
 
Não se trata de não prezar a ordem e a autoridade! Eu prezo a ordem e a autoridade! A autoridade do conhecimento, do saber, da razão e da inteligência, de onde emana a bondade, a tolerância, o amor e a solidariedade. Ora esta autoridade nada tem em comum com a autoridade que submete, a autoridade da hierarquia presente nas personalidades ansiosas de serem obedecidas e reconhecidas, que sentem prazer em dispor de subordinados, nada tem em comum com a rigidez, a intolerância e o cinismo das mentes doentias dos grandes ditadores dos Estados ou dos pequenos ditadores de escritório, nada tem em comum com o autoritarismo ridículo do "porque é assim" e do porque "eu mando" que domina nesta sociedade desenvergonhada.
 
 Amo principalmente a Liberdade, não esta coisa que é uma liberdade cercada por todos os lados, a nível económico, moral e legal, que se confunde com a licença, que empalidece à medida que vão aparecendo os limites, as fronteiras, para finalmente começar a dar lugar à massificação humana e ao condicionamento alienador, essa coisa não é a Liberdade. Só podemos ser livres, no verdadeiro sentido, se vivermos isentos de todas as pressões económicas, religiosas, políticas, jurídicas, etc. De outra forma seremos sempre presas fáceis de conduzir e condicionáveis à conveniência dos poderes, ao ponto de pedir mais policias.
 
 Agora, não se deve confundir a manifestação contra a repressão policial com manifestação contra o policia, coitadinho, até porque a Polícia tal como as classes sociais, não são redutíveis à dinâmica duma lógica bipolar, ela está estruturada de forma a que o verdugo de um é por condição o servo de outro, para além de os indivíduos terem de ser dominados antes de poderem ser explorados; o grau do domínio é mais vasto do que o da exploração e o policia, numa análise radical, um padecente do sistema que defende, mas isso não é desculpa para se ser parvo. Quem se quer deixar roubar só porque o ladrão é uma vitima da sociedade?!
 
 De resto acho uma irresponsabilidade terrível defender a Policia, sabe-se demasiadamente bem, que só homens iguais e livres, fora de qualquer estrutura hierár­quica e de qualquer relação de comando-obediência, podem ser res­ponsáveis; caso contrário, cai-se na irresponsabilidade dos criminosos de guerra que apenas executam ordens de que até discor­dam, vindas muito lá de cima, como qualquer policia pode confirmar.
 
 Em resumo, a Polícia serve apenas para se certificar que a desordem social capitalista continue tal como está, extremamente injusta, desigual e opressiva, que nunca chegue uma genuína revolução libertadora, que tudo fique como está e que você tenha medo, muito medo, e peça cada vez mais e mais polícias.
 
 Apareçam!
 Saúde, e viva a Liberdade.
wolflicia copy
 
Enganaram-te quando te dizem que a anarquia é a desordem, para te mascararem a desordem presente..
 

 

 

April 12

Manifestação Antiautoritária Contra a Repressão Policial.

Um ano depois do ataque policial em pleno Chiado no dia 25 de Abril de 2007, dois meses depois da carga policial no despejo do Grémio Lisbonense , perante os ataques continuados da polícia em Bairros Sociais e por todos os episódios de abuso e violência perpetrados pela repressão organizada do Estado, convocamos uma manifestação antiautoritária contra a repressão policial.
Manifestamo-nos neste dia porque passaram 34 anos desde que uma pseudo-revolução substituiu um governo fascista por um governo que continua a controlar, a matar e a reprimir e cujos antecessores rapidamente se preocuparam em controlar o "descontrolo" das populações no pós 25 de Abril.
A marcha dos tristes, que todos os anos comemora esta transição, não nos diz nada, pois não queremos celebrar o quotidiano policial nem a liberdade-de-centro-comercial.
O sistema capitalista, na sua vertente democrática, leva-nos a pensar que não sabemos gerir as nossas vidas e que a polícia é uma realidade à qual não podemos fugir. Como se não bastasse vivermos num estado policial, querem que sejamos nós próprios os polícias das outras pessoas, de nós próprios e dos nossos vizinhos. A polícia, que todos os dias reprime e violenta, não serve a ninguém se não àqueles que lucram com a miséria de todos os outros, àqueles que nos oferecem uma vida controlada, que destroem os ecossistemas, que impõem fronteiras entre regiões, que nos roubam no trabalho, que nos dizem como devemos ser e que nos querem convencer que somos indivíduos, quando a nossa individualidade não passa de uma ilusão no leque de possibilidades que a sociedade de consumo nos deixa ter.
Assim, esta como qualquer outra data, serve para contestar este e qualquer governo pois, inevitavelmente, todos nos querem impor uma vida debaixo de câmaras de vigilância, fronteiras e polícias várias. Todos estes métodos de controlo e repressão são tendencialmente universais e à medida que o tempo passa achamos serem cada vez mais normais e sabemos serem também mais presentes.


Todos conseguimos resolver os nossos conflictos, pensar pelas nossas próprias cabeças, imaginar como realmente queremos que sejam as nossas vidas.


Apelamos à participação de todos aqueles que condenam a violência policial e os métodos que o capitalismo e o estado têm para nos controlar.


Praça da Figueira, Lisboa, 17:30h, 25 de Abril de 2008.Manifestação 25 Abril

March 31

O COMUNISMO ANARQUISTA, A AUTOGESTÃO E A DEMOCRACIA DIRECTA

O COMUNISMO ANARQUISTA, A AUTOGESTÃO E A DEMOCRACIA DIRECTA

 

Será que nós, anarquistas-comunistas, lutamos para que sejam os produtores a gerir directamente a produção actual? Será que lutamos para que sejam os actuais assalariados a gerir as empresas, através, por exemplo, de sindicatos revolucionários ou de conselhos (assembleias de delegados dos trabalhadores)? Será que nós encaramos a anarquia unicamente como uma nova forma de organização e de gestão da sociedade?

Será que nós, após a expropriação da classe dirigente e proprietária, não nos oporemos à existência de indústrias que estão a destruir as condições de vida do planeta? Será que comba­temos por um "socialismo autogestionário", no quadro de uma economia que se baseia na produ­ção militar? Será que nós pretendemos manter actividades produtivas, cuja função é a satisfação de necessidades determinadas pelo actual teatro social? Será que queremos manter uma produção cujos produtos não servem para satisfazer as necessidades de indivíduos autênticos, mas os pseudo-desejos de homens moldados pela hierar­quia social? Será que nós não pomos em causa o carácter alienante das diversas funções que os trabalhadores desempenham actualmente? É verdade que não contestamos a hierarquização das várias funções sociais, inerente às estruturas económicas vigentes? Não contestamos nós a divisão do trabalho em "manual" e "intelectual"? Aceitamos nós as actuais divisões e especia­lizações do trabalho social? Será que não nos opomos a que os indivíduos se encontrem numa situação de quase total dependência dos vários especialistas, isto é, da actual organização social do trabalho? Aceitamos nós o fenómeno da con­centração urbano-industrial e a divisão do mundo em zonas industriais e rurais? Não lutamos nós por uma crescente autonomia dos indivíduos, co­munidades e regiões? Pretendemos nós perpetuar a actual passividade do indivíduo-consumidor?

As nossas respostas a todas estas questões podem ser resumidas numa única frase: os anarquistas-comunistas não lutam por uma qualquer forma de democratização desta sociedade, ou seja, pela transformação dos explorados e oprimidos em carcereiros de si próprios, mas sim pela destruição completa de todas as estruturas e instituições que integram a actual organização social.

Nós não nos limitamos a propor um deter­minado modo de organização e de gestão da vida social. Não encaramos a organização e a gestão como domínios separados da vida das pessoas. Opondo, ao governo do homem pelo homem, a administração das coisas, não pretendemos, contudo, administrar aquilo que o presente sistema social criou, ou seja, as coisas cuja existência só se explica pelo carácter autoritário e capitalista da sociedade vigente. Para se ter uma noção exacta dos problemas que se levantam num processo revolucionário de edificação de uma sociedade anarquista comunista e, sobretudo, para se definir um método de actuação que permita resolvê-los, é indispensável compreender-se o seguinte:

 

1º A máquina governamental e a economia capitalista têm como suporte e objecto a globali­dade da sociedade em que se inserem. O poder político e o poder económico capitalista não são algo que se possa dissociar do conjunto da prática social dos indivíduos. Independentemente da forma que assumem, o Estado e o capitalismo tendem a condicionar ou a absorver a totalidade da actividade humana. As estruturas e instituições do poder alienado não são somente os órgãos que constituem o aparelho estatal (o governo, o parla­mento, a polícia, a máquina judicial, as prisões e as forças armadas), a propriedade privada, o salariato e as relações hierárquicas existentes nas empresas. As aplicações da ciência e a própria investigação científica, a escola como domínio separado da vida, as características e funções sociais dos produtos fabricados, o cultivo dos cam­pos, a natureza das actividades dos trabalhadores, a divisão social do trabalho, a organização empre­sarial da economia, os mass media, as estruturas habitacionais (o "encaixotamento" dos indivíduos nas grandes urbes, por exemplo), etc, constituem com a exploração capitalista e o aparelho estatal um todo coerente.

Nenhuma das partes constitutivas da sociedade autoritária e capitalista é susceptível de ser gerida pelos produtores, nenhuma delas é compatível com a associação livre e igualitária dos homens. Expropriar-se os capitalistas, para se gerir as em­presas, constitui um contra-senso, se se pretende acabar com a desigualdade social e instaurar a liberdade individual. A existência destas entidades jurídicas, unidades económicas autónomas, prova por si só que a produção é um fim em si própria, ou seja, um poder separado. Basta considerar-se a organização interna inerente a estas unidades económicas separadas e os desníveis (ou diferentes "qualificações") existentes no seio dos respectivos trabalhadores, para se compreender que a "autogestão" das empresas não passaria de um ornamento. Inelutavelmente, esta entidades jurídicas autónomas passariam a ser geridas de facto pelos trabalhadores "mais qualificados", isto é, por aqueles que já hoje ocupam posições im­portantes na organização piramidal das empresas, embora as decisões referentes à vida destas passassem a ser tomadas, formalmente, em assembleias de todos os seus empregados, ou em assembleias de "mandatários" eleitos e revogáveis a todo o instante. Necessariamente, o chamado socialismo autogestionário serve apenas para alterar a composição da camada dirigente e consolidar a posição obtida pelos novos gerentes da economia capitalista.

O objectivo da revolução anarquista comunista não é a apropriação pelos trabalhadores da merda existente, da obra realizada pelo Estado e pelo capitalismo. Lutando para libertar a Terra do domínio que sobre ela exerce a classe dirigente, domínio esse que se baseia na instituição­-propriedade e que é assegurado pela violência organizada do Estado, os anarquistas-comunistas pretendem a construção, sobre as ruínas do velho mundo, de uma vida humana liberta de todas as alienações: trabalho assalariado, produção sepa­rada, etc. Os anarquistas-comunistas não lutam apenas contra certos fragmentos ou aspectos "excessivos" da actual sociedade, pretendendo, por exemplo, a participação voluntária e activa dos explorados na engrenagem da exploração das suas faculdades físicas e mentais. Em vez da gestão das prisões pelos presos, os anarquistas­-comunistas querem arrasar todos os cárceres em que os seres humanos passam, hoje, toda a sua vida: escolas, casernas militares, empresas, trans­portes urbanos, as gaiolas humanas existentes nos subúrbios das grandes cidades, hospitais, lares para a 3ª idade, estâncias de férias criadas por instituições como o INATEL, etc, etc.

 

2º A expressão democracia directa constitui uma contradição nos seus termos. Na prática, não passa de uma pura ficção ou de um ornamento, por detrás do qual se esconde a pirâmide social. Contrariamente ao método da acção directa, de acordo com o qual os indivíduos agem e se associam sem intermediários e determinados unicamente pelos seus interesses e necessidades individuais, segundo o qual a associação das pessoas reflecte uma convergência de interesses individuais, expressos directamente pelos próprios interessados, a democracia, de uma forma ou de outra, aparentando conciliar o irreconciliável, ou seja, os interesses opostos, significa sempre, na prática, uma tentativa de suprimir as especificida­des dos homens e as vontades individuais, ou melhor, é uma maneira de subordinar o interesse individual ao chamado interesse colectivo. Independentemente da forma de que se reveste, o seu conteúdo é a soberania da colectividade, considerada esta como uma abstracção. Contra­riamente à Anarquia e à aplicação do seu método específico de luta - a acção directa, em que a associação das pessoas, a tomada de decisões, a organização das actividades e a concretização destas constituem aspectos integrados da prática dos indivíduos, a democracia, dita representativa ou directa, constitui uma parcelarização da vida das pessoas. Privilegiando a organização e a gestão, os defensores da democracia directa vêem a realidade da vida dos homens dividida em compartimentos separados e hierarquizados. A democracia é uma manifestação do fenómeno da alienação social, é um poder separado. Particu­larmente, a democracia baptizada de directa, porque é associada à ideia da participação não mediatizada dos explorados na gestão da vida social, é uma dupla vigarice.

Se as acções do povo revolucionário de Paris e de outras localidades de França tivessem dependido, por exemplo, das decisões da Assembleia Nacional, a Bastilha não tinha sido tomada nem a revolução francesa se tinha consu­mado. Se, na revolução espanhola, os anarquistas aragoneses tivessem ficado à espera de decisões de assembleias democráticas para agirem revolucionariamente, para atacarem os postos da Guarda Civil e expropriarem os terratenientes, as colectividades anárquicas de Aragão, um dos acontecimentos mais grandiosos da história da humanidade, não se tinham tornado realidade. Se os trabalhadores anarquistas de Barcelona, para se armarem, tivessem precisado de decisões de quaisquer assembleias democráticas, a revolta militar fascista, que eclodiu em 1936 nesta cidade, não tinha sido rapidamente esmagada. Se a transformação social se torna dependente do funcionamento de uma democracia qualquer, de assembleias de trabalhadores, por exemplo, a acção das minorias mais evoluídas e combativas paralisa-se e, consequentemente, impede-se a consumação do facto revolucionário, única forma de abrir os espíritos da maioria das pessoas à penetração das ideias renovadoras. Se se considerar que, mesmo em períodos de convulsão social, ainda é grande, nas mentes da maioria dos explorados, a influência das ideias retrógradas ou tradicionais, não é difícil concluir que nas Assem­bleias gerais de trabalhadores e noutros órgãos da denominada democracia directa, nunca prevalece­rão as opiniões mais avançadas. A experiência das revoluções passadas prova que, enquanto a luta é uma expressão da auto-actividade dos indi­víduos insurgentes, a revolução social desenvolve­-se sem grandes problemas, isto é, sem encontrar obstáculos intransponíveis. Os graves problemas só começam a surgir quando os revolucionários, deixando de agir de acordo com as suas motivações pessoais e abandonando o método da propaganda pelo exemplo prático, vão na conversa da democracia.

A democracia, indirecta ou directa, foi sempre a porta por onde entrou, disfarçadamente, a contra­-revolução, depois de ter sido derrotada pelas forças insurgentes no campo da batalha frontal. Foi assim, por exemplo, na Rússia, com a trans­formação dos sovietes em autênticos parlamentos operários. Particularmente, a chamada democracia directa tem sido utilizada por certas forças contra­-revolucionárias, os partidos marxistas-leninistas, como um instrumento da sua luta pela conquista do poder político. É esta a explicação das palavras de ordem dadas por Lenine, "Todo o Poder aos Sovietes" e "Controle Operário".

Diferente da democracia directa é o federalismo preconizado pelos anarquistas. Não sendo uma forma de gestão ou de organização separadas, mas sim uma forma de cooperação concretizada através de pactos livres, bilaterais, comutativos e limitados, o federalismo anárquico tem como fundamento essencial a autonomia individual. Na união federativa anárquica, o indivíduo não tem de se sujeitar à vontade da maioria, não é forçado a fazer algo de que discorde. Na união federativa anárquica, o indivíduo não se transforma numa simples parte da colectividade. Por muito estranho que possa parecer a certas pessoas, o comunismo anarquista é um comunismo individualista.

 

3º O indivíduo em que assenta a edificação do comunismo anarquista, não é o indivíduo enca­rado como um mero produtor. Os anarquistas­-comunistas não opõem, à ditadura dos auto­-intitulados representantes dos trabalhadores, a ditadura dos produtores, quer através de sindica­tos revolucionários, quer através dos "conselhos operários". O indivíduo em que se baseia a cons­trução de uma sociedade anarquista comunista, é o ser humano individual considerado na sua totalidade (não só como produtor, mas também como consumidor).

Uma das finalidades essenciais do combate anarquista comunista é acabar com a actual passividade dos consumidores, ou melhor, com a situação de dependência em que os homens se encontram. Nós pretendemos que cada indivíduo intervenha directamente em todas as partes do processo de satisfação das suas necessidades. Nós não queremos uma sociedade constituída por indivíduos que sabem cada vez mais de cada vez menos, isto é, por meros especialistas. Lutamos para que cada indivíduo intervenha directamente na produção daquilo que come, do vestuário que usa, da casa que habita, etc. Não queremos que os doentes se encontrem numa situação de dependência absoluta dos profissionais da saúde, mesmo que as prisões hospitalares e a indústria farmacêutica sejam "autogeridas" pelos res­pectivos trabalhadores. Não queremos que as comunicações entre indivíduos, que se encontrem separados por grandes distâncias, sejam media­tizadas por empresas como os "C.T.T." e a "P.T.". Em suma, os anarquistas-comunistas lutam por suprimir a divisão produtores/consumidores, única forma de acabar com o domínio do homem pela mercadoria e demais alienações sociais.

Como é evidente, uma produção determinada exclusivamente pelas necessidades dos indivíduos é incompatível com o gregarismo existente e com a massificação e atomização dos seres humanos; ela é incompatível com as grandes concentrações urbanas e industriais, a divisão do território em zonas residenciais, industriais e agrícolas, as unidades produtivas de grande dimensão e a especialização das diversas sub-regiões e regiões em uma ou duas actividades económicas. Todos estes fenómenos são inerentes ao crescimento do Estado e à dinâmica capitalista. Uma produção não alienada pressupõe a associação livre e igualitária dos homens, meios produtivos e comunidades controláveis pelos indivíduos, isto é, feitos à sua própria medida, e uma nova relação da humanidade com a natureza, uma relação de adaptação e não de domínio, uma relação anti­-hierárquica.

O comunismo anarquista, ou seja, o verdadeiro comunismo, assenta, por conseguinte, em pequenas comunidades ou comunas livres, solidárias entre si e auto-suficientes, nas quais a produção e demais actividades sociais são partes integradas da sua vida global. A edificação das comunas autónomas e sua natural união federativa significam uma revolução em todos os domínios da actividade humana. Implicam, por exemplo, um novo tipo de aprendizagem, não separado da prática, novos objectivos para o desenvolvimento científico e a transformação da tecnologia num verdadeiro complemento ou instrumento da auto-actividade dos indivíduos humanos. A sociedade anarquista-comunista será necessariamente uma sociedade de abundância relativa, pois esta é indissociável da liberdade e da igualdade social.*

 

   Na perspectiva da revolução anarquista comunista, a greve geral activa, a greve com ocupação dos locais de trabalho, não é encarada como um fim em si própria, ou seja, como o início do ilusório controle operário das empresas, mas apenas como um meio de luta insurreccional. Com esta acção insurgente, pretende-se paralisar a má­quina estatal, desorganizar a economia capitalista, vencer a resistência da classe dirigente e, conse­quentemente, desmantelar por completo a actual engrenagem social.

Na perspectiva anarco-comunista, a greve geral activa é encarada, sobretudo, como uma condição da expropriação das classes possidentes e do aniquilamento da contra-revolução armada, ou seja, como uma componente da estratégia insurrec­cional da revolução anarquista internacional.

 

Para que a revolução não se fixe na "autogestão" do existente, para que a greve geral insurreccional não seja, ao fim e ao cabo, um simples meio de alterar a composição da classe dirigente, mas sim um instrumento da destruição global da sociedade vigente, há que dar uma grande importância a um dos aspectos da aplicação prática do método da acção directa - a propaganda pelo exemplo prático construtivo. Para se realizar a revolução social, não basta fazer a propaganda das ideias e aplicar à guerra social as tácticas da acção directa. Embora indispensáveis, a propaganda escrita e oral e a propaganda pelo acto insurgente são insuficientes. A maioria dos explorados e oprimidos só se lançará na obra construtiva da revolução social, se o comunismo anarquista se tornar aos olhos dela um objectivo tangível, o que pressupõe, eviden­temente, a existência de exemplos práticos de uma vida completamente diferente. É importante compreender-se que não existe nenhuma lei do desenvolvimento social independente da vontade dos indivíduos, que a sociedade anarquista não é uma inevitabilidade histórica.

 

. . .

 

Contrariamente às diversas formas de demo­cratização da sociedade hierárquico-capitalista, a edificação do comunismo anarquista significa, não só o aniquilamento social da classe dirigente e privilegiada, mas também uma profunda revolução em todos os domínios da vida dos seres humanos. Resumidamente, são características fundamentais da revolução anarquista comunista:

 

- A supressão dos Estados Nacionais e demais estruturas do poder alienado; a supressão de todas as relações sociais que se baseiam no princípio metafísico da autoridade.

 

- A abolição da instituição-propriedade e seus derivados: desigualdade económica, produção mercantil, dinheiro e salariato.

 

- A supressão de toda e qualquer forma de sujeição do indivíduo pela colectividade; a supres­são de toda e qualquer forma de cooperação humana não voluntária.

 

- A destruição do domínio que a obra humana exerce sobre os seus próprios autores.

 

- A substituição do totalitarismo democrático pela união solidária e voluntária, isto é, federativa, dos indivíduos e suas associações livres e igualitárias.

 

- A supressão das divisões sociais: represen­tantes / representados; governantes / governados; proprietários / proletários; ricos / pobres; dirigentes / executantes; trabalhadores "intelectuais" / traba­Ihadores "manuais"; produtores / consumidores; escola / vida prática; locais de residência / locais de trabalho; regiões industriais / regiões agrícolas; zonas urbanas / zonas rurais; etc.

 

- O auto-desenvolvimento dos seres humanos, considerados na sua individualidade e na sua dimensão ético-social.

 

Observações Finais

 

a) Muitos anarquistas atribuem à expressão autogestão um significado anárquico, utilizando-a como sinónimo de autogoverno dos indivíduos. Como é óbvio, não é esta a concepção que se critica neste artigo. O que se ataca é a auto gestão defendida por várias correntes do socialismo auto­ritário (marxistas conselhistas, certos trotsquistas, socialistas cristãos e outros).

 

b) Alguns companheiros empregam a expres­são democracia directa como sinónimo de acção directa e até de Anarquia. Nós consideramos isto incorrectíssimo. Em nossa opinião, a ideia da democracia é inseparável de uma concepção segundo a qual o indivíduo humano não passa de uma mera parte de um conjunto social, embora possa participar activamente na organização e funcionamento da colectividade; ou seja, é indisso­ciável de uma concepção da vida social em que a vontade de cada indivíduo é condicionada ou limitada por "vontades maioritárias". À democracia, em geral, opomos o federalismo anárquico que, embora associativista, exprime sempre uma convergência de interesses e necessidades individuais e fundamenta-se na autonomia e liberdade dos associados. Nós diferenciamos as decisões democráticas, consideradas como sendo a expressão de uma vontade colectiva imaginária, dos pactos ou acordos livres.

Independentemente dos diferentes significados dados à expressão em causa, pensamos que é fundamental distinguir o federalismo anarquista do chamado poder popular de base, preconizado por certas correntes da extrema-esquerda portuguesa, por exemplo.

 

Grupo Vermelho e Negro



* A escassez é o resultado da desigualdade social. Particularmente, no caso da actual sociedade, ela é uma consequência lógica de uma economia cujo incentivo é a obtenção de lucros crescentes. A liber­dade, para a qual não há substituto, é inseparável, de facto, da satisfação das necessidades humanas. Como o demonstra a história, só a liberdade permite o progresso humano, permite aos homens superar todos os obstáculos e resolver os seus problemas.

 Sobre a questão da possibilidade de uma peque­na comunidade, ocupando uma área reduzida, viver em abundância, leia-se a obra do anarquista Murray Bookchin, denominada O anarquismo na sociedade de consumo.

puno

February 01

O REI MORREU! VIVAM OS REGICIDAS!

Hoje estivemos a celebrar os 100 anos do assassinato, não do rei, mas dos regicidas que o mataram. Claro que a policia de faxina não nos permitiu uma estada muito duradoura no local de festejos, mas foi o suficiente para agredir o bom tom em que as festas, de um rei com propensão para nomear ditadores como João Franco ou Hintz Ribeiro, se realizavam.

É de assinalar que hoje como no dia do enterro dos corpos destes Carbonários Anarquistas vilmente assassinados pelo Guarda Monarquica várias mãos voltaram a florir as suas campas.


Panfleto distribuído durante a acção.

 

O REI MORREU! VIVAM OS REGICIDAS!


Alfredo CostaManuel Buiça

Alfredo Costa e Manuel Buiça
 
 

«Sou pelas greves como sou por todos os métodos de resistência utilizados pelos fracos, pelos oprimidos,
em defesa dos seus legítimos interesses (...). O meu ódio maior, a minha mais viva repulsa, dirigem-se aos
patrões burgueses que nos exploram e que sem altivez servimos.»
Alfredo Costa, segundo Aquilino Ribeiro (Um Escritor Confessa-se, Lisboa, 1974, p. 361)

«A elaboração do regicídio operou-se fora da nossa presença [dos republicanos] e sem a nossa cumplicidade
(...). Não foi pois a revolução que o matou [D.Carlos], mas sim a anarquia.»
João Chagas, político republicano (Subsídios Críticos para a História da Ditadura, Lisboa, 1908, pp. 8-11)


Celebramos, no dia 1 de Fevereiro de 2008, o centenário de um acto glorioso de emancipação social
como sempre é a execução de um rei. Os regicidas que, em 1908, levaram a cabo o bem sucedido atentado contra
o rei e o príncipe herdeiro -, Alfredo Luís Pereira da Costa, ex-administrador do semanário sindicalista da
sua classe profissional, «O Caixeiro», e Manuel dos Reis Buíça, professor do ensino livre -, eram homens
de uma consciência social profunda, que os levou a sacrificar a sua vida pela concretização dos seus
ideais de liberdade e igualdade social.

Para muitos, como Buíça e Costa, a República surgia como uma possibilidade de realizar as aspirações por
um mundo livre e igual. Seria também uma forma de acabar com a repressão que pendia sobre o crescente
movimento operário e libertário, acabando com as famigeradas leis anti-anarquistas e com as prisões e
deportações para África e Timor, de onde poucos voltavam.

Mas as esperanças do povo que saiu à rua para implantar a República, em 5 de Outubro de 1910, foram
frustradas, quando, instalados no poder, os republicanos se converteram em opressores tão ou ainda
mais ferozes que os monárquicos. Por isso, o movimento operário, anarco-sindicalista, cresceu a partir de
1911 contra a República, enfrentando a sua repressão.

Hoje, como nestes tempos, os governantes, qualquer que seja a sua cor política, servem sempre os seus
interesses e os da máquina capitalista. Só a luta autónoma, auto-organizada e directa pela recuperação
do controlo sobre as nossas vidas, pode surtir algum efeito contra aqueles que nos oprimem e exploram todos
os dias.

HOJE COMO ONTEM, GUERRA A TODOS OS QUE NOS OPRIMEM,
MONÁRQUICOS OU REPUBLICANOS, FASCISTAS OU DEMOCRATAS!

@s amig@s de Costa e Buíça
June 23

O ANARQUISMO E A VIOLENCIA

ESCRITOS DE MALATESTA SOBRE A VIOLÊNCIA

 

«(...) A violência só se justifica quando for necessária para se defender a si próprio, ou defender os outros contra a violência. O delito começa onde termina a necessidade.

(...) O escravo está sempre em estado de legítima defesa e, portanto, a sua violência contra o senhor, contra o opressor, é sempre moralmente justificável; ela deve ter como regra um único critério: a utilidade e a economia do esforço e dos sofrimentos humanos.»

(Umanità Nuova, de 25 de Agosto de 1921)

 

«Os anarquistas não são hipócritas. É pela força que se resiste à força: (...)»

 

(Pensiero e Volontà, de 1 de Setembro de 1924)

 

«Pensamos que a violência é necessária, que é um dever, quando é defensiva e somente quando for defensiva. E por defensiva não queremos dizer apenas contra a agressão física, directa, imediata, mas também contra todas as instituições que mantêm, graças à violência, as pessoas na escravidão.»

 

(Umanità Nuova, de 21 de Outubro de 1922)

 

 

 

EXCERTO DE UM ARTIGO SOBRE A NATUREZA DA LUTA ANARQUISTA

 

(...) Defrontando-se com um meio social baseado na violência e no crime, defrontando­-se com uma contra-revolução organizada e armada, o movimento anarquista inclui neces­sariamente práticas de carácter violento. A acção dos anarquistas pacifistas, se bem que seja muito positiva, é manifestamente insufi­ciente. Os anarquistas pacifistas não dão a devida importância ao facto de a classe dominante estar disposta a oferecer uma resistência encarniçada a todas as lutas que ponham em causa os seus privilégios e a sua posição social.

 

Os actos violentos dos anarquistas são completamente distintos dos actos terroristas, efectuados, por exemplo, por certos agrupa­mentos leninistas e nacionalistas. A violência anarquista é algo completamente diferente da violência a que recorrem as organizações que lutam pela conquista do Poder, é algo total­mente exterior à violência política. Os anar­quistas não sequestram ninguém, não torturam pessoas e não agridem indivíduos indiscrimi­nadamente. Os anarquistas respeitam a dignidade de todos os indivíduos, inclusive a dos seus inimigos, e não procuram impor as suas ideias pelo terror, pois a sua acção é libertadora, e não política. Os anarquistas não visam dominar ninguém, pela violência física, pelo terror ou por qualquer outro meio. Rejeitando todo e qualquer género de responsabilidade colectiva, que consideram uma mera abstracção, os anarquistas pensam e agem de acordo com o princípio de que cada pessoa deve ser responsabilizada pelas suas acções, ou melhor, arcar com as conse­quências dos seus actos. Se por razões de defesa, e não por vingança, podem decidir liquidar, por exemplo, um ditador, jamais os anarquistas responsabilizam uma colectividade inteira por crimes cometidos apenas por alguns dos seus membros (por exemplo, pelos seus chefes). Contrariamente aos reformistas brutais, os anarquistas possuem uma visão crítica da violência.

 

A violência dos anarquistas é uma mani­festação do seu espírito insubmisso e de revolta, é uma violência social, isto é, corres­ponde a necessidades da luta social dos oprimidos e revoltados, constitui uma resposta necessária à violência organizada da socie­dade autoritária, ou seja, é de carácter defensivo. Sendo a violência para eles uma dura necessidade, e não um prazer, os anarquistas procuram reduzi-la ao mínimo indispensável. O que move os anarquistas é a obra positiva da revolução social, é a construção de um meio social baseado na LIBERDADE. (...)

 

(...) No âmbito da prática anarquista, são também relevantes os actos de revolta indi­vidual, actos que, na maior parte dos casos, assumem formas violentas e que não são, obviamente, determinados por considerações de ordem táctica ou estratégica. Sendo nitidamente exteriorizações de elevados senti­mentos éticos (refiro-me, por exemplo, ao assassinato do presidente McKinley pelo anar­quista Czolgosze ao atentado de que foram vítimas o rei D. Carlos de Portugal e o seu filho mais velho), evidenciando a existência de sensibilidades humanas que não suportam de forma nenhuma as injustiças que cometem os defensores da desordem capitalista, estes actos individuais, apesar do seu carácter excepcional, muito contribuem para que o movimento anarquista não se atole no lodaçal das "liberdades" concedidas e regulamentadas pelo Estado dito de Direito, para que não se transforme em algo comparável aos partidos políticos. (...)

 

David Oliveira

 Extraído da revista anarquista ACÇÃO DIRECTA - II série - N.º15  - Outubro /Novembro de 2001.

June 15

O Ciúme e o seu Antídoto

O CIÚME E O SEU ANTÍDOTO

 

Ocupar-se da chamada “questão social” e deixar de lado os estragos e repercussão da terrível praga social, que é o ciúme, no terreno sexual, para a humanidade, parece-me tremenda falta de lógica. Eis aqui algumas das razões em que apoio esta asserção:

1.      O ciúme causa, anualmente, conforme o ano, de mil a mil e duzentas vítimas em França . Estes números não concernem, claro está, mais que às vítimas e estragos do ciúme conhecidos do público. Se a proporção é a mesma nos outros países, resultarão imoladas a esta modalidade da loucura, de quarenta a cinquenta mil vítimas anualmente.

2.      Consideremos os meios aos quais recorrem os ciumentos para saciar o seu furor. Assassina-se por ciúme, servindo-se de tesouras, punhais, limas, estiletes, canivetes e navalhas de toda espécie, martelos, machados, machadinhas, corta-papéis, foices, revólveres, fuzis, metralhadoras, etc. Para matar e morrer, os ciumentos recorrem ao veneno, à defenestração, ao enforcamento, ao afogamento, à estrangulação, etc., etc. Emparedam, calcinam, cortam em pedaços, crucificam. Arrancar os olhos, cortar o nariz e as orelhas, ablação dos órgãos sexuais, incluindo seios e outras mutilações – figuram no catálogo dos suplícios infligidos aos seres a quem os ciumentos pretendem amar sem rival. E não aludo aqui às denúncias apresentadas aos tribunais. Os cárceres estão cheios de pobres-diabos de ambos os sexos, vítimas do ciúme. (Se algum leitor me acusar de exagero, convido-o a ler o relato dos dramas passionais na imprensa de todo mundo).

3.      Os crimes originados pelo ciúme, exigindo a intervenção da lei com as suas sanções penais, justificam e reforçam as instituições autoritárias e apertam ainda mais as redes do contrato social imposto.


Do que deixo escrito pode concluir-se que o ciumento é um ser humano em estado de demência, senão em vias de regressão. O pior é que este modelo de retardatário se encontra ainda nos meios de vanguarda ou extremistas. Até entre os chamados anarquistas, o ciúme causa mortes, suicídios, delações, brigas e inimizades entre camaradas. Importa, pois, em minha opinião, analisar o ciúme, procurar o remédio e, determinado este, combater a doença.


Tem-se objectado que “o ciúme não se compra”. Fraca objecção. Aceitá-la equivaleria a desesperar de todo esforço tentado, em vista de libertar o ser humano dos preconceitos que lhe abrasam o cérebro. Também o crente, o patriota e outros doentes mentais asseguram que a fé, o amor à pátria, etc., tampouco se compram. O capitalista afirma, do mesmo modo, que o desejo de acumular riquezas todos o recebem em herança. O ciúme é diagnosticável, analisável, como qualquer outro sentimento autoritário ou paixão.


Numa novela de Georges Delbruck, “No País da Harmonia”, um dos personagens, uma mulher, define assim o ciúme: “Para o homem, a graça, a beleza, os encantos duma mulher implicam na posse da referida mulher, no direito de dominá-la, de seviciar a sua liberdade, na monopolização do seu amor, na proibição de amar outro homem. O amor serve de pretexto ao homem para legitimar a sua necessidade de domínio. Esta falsa concepção do amor está de tal forma enraizada entre os chamados civilizados, que não duvidam em pagar com a sua liberdade a possibilidade de destruir a liberdade da mulher a quem pretendem amar.” Este quadro é exacto, mas tanto se aplica à mulher, como ao homem. O ciúme na mulher é tão monopolizador como no homem.

 
O amor, tal como entendem os ciumentos, é, por conseguinte, uma categoria do arquismo. Não é mais do que a monopolização dos órgãos sexuais palpáveis, da pele e do sentimento de um ser humano, em proveito exclusivamente de outro. O estatismo é a monopolização da vida e da actividade dos habitantes de toda um região, em benefício dos que a regem. O patriotismo é a monopolização, em proveito do Estado, das forças-vivas humanas de todo um conjunto territorial. O capitalismo é a monopolização, a serviço de um reduzido número de privilegiados, em cuja posse se encontram as máquinas e os géneros necessários à vida, de todas as energias e faculdades produtivas do resto dos homens.

 
A monopolização estadista, patriótica, religiosa, capitalista, etc., está em germe no ciúme, pois é evidente que este precedeu as dominações política, religiosa, capitalista, etc. O ciúme precedeu a vida em sociedade. Por esta razão, os que combatem a mentalidade social dos nossos dias não podem deixar de declarar guerra ao ciúme. Sendo o amor considerado como uma estranha monopolização, o ciúme aparece-nos como um simples aspecto da dominação do homem sobre o seu semelhante, homem ou mulher, um aspecto do descontentamento ou da cólera que um ser vivo sente quando vê ou prevê que a presa se lhe escapa das mãos. A isto conduz o ciúme, na maioria dos acessos, despojados de todo floreio ou compostura de que necessitam para tornarem-se apresentáveis e aceitáveis, decorados pelas tradições, as conveniências, as leis religiosas ou civis. A este aspecto mais comum do ciúme dou eu o nome de ciúme-propriedade.


Existe uma segunda forma do ciúme, a que poderemos chamar ciúmes sensuais. Um dos participantes da associação amorosa, encontrando no seu companheiro ou companheira perfeita satisfação, vê-se privado, pelo fato de haverem cessado as relações puramente sexuais, que o vinculavam ao outro ou à outra. Seu pesar agrava-se, ao saber que um terceiro desfruta de um prazer que o “doente” se havia acostumado a reservar para si, sem receio de comparticipação. A doença agrava-se à medida em que é mais voluptuoso o objecto de carinho, ou mais dotado está de atributos físicos especiais.


Há ainda uma terceira modalidade de ciúme: a sentimental. É, segundo os especialistas, a mais grave e a mais interessante forma da doença. O padecimento, que pode chegar até uma indescritível tortura moral, provém dum sentimento claramente caracterizado por uma diminuição da intimidade, redução da amizade, debilitação da felicidade. Explique-o ou não, o paciente percebe a sensação, bem clara, de que o amor, do qual era o eixo, diminui, baixa e ameaça extinguir-se, enquanto que o seu, sobreexcitado, aumenta. Ressente-se moral e fisicamente, e a sua saúde geral altera-se.


Reconheço que os “ciúmes sentimentais” podem considerar-se como uma reacção do instinto de conservação da vida amorosa contra o que ameaça a sua existência. Sabendo-se que uma vida sentimental profunda se alimenta de amor, de afeição, de confiança recíproca, compreender-se-á que, ao faltar-lhe o seu alimento, e ao ameaçá-la com o desaparecimento, haja reacção lógica, resistência natural.


Eu sei, os fatos o demonstram, que o “ciúme sentimental” é difícil de curar, que pode mesmo ser incurável. Certos enfermos recebem tal golpe duma decepção amorosa, que toda a sua vida se ressentem disso. Seres que edificaram a sua vida sentimental sobre uma afeição única, sentem-se, ao faltar-lhes esta, de tal modo desorientados, que se suicidam, como acontece frequentemente com os portadores de doenças tidas incuráveis. Não é que eu negue que seja uma crueldade, sadismo até, deixar no abandono e na dor a quem ama sincera e profundamente e já teve ocasião de ser amado do mesmo modo. Negar isto evidenciaria falta de juízo por parte de um partidário do contrato ou do pacto. Mas não são estas considerações que hão de curar o doente.


Resta ainda a considerar os ciúmes de ordem sentimental-sexual. Na sua “Dor Universal” (p .3), Sébastien Faure apresenta o ciúme como um “sentimento puramente artificial”, “derivado de circunstâncias abolíveis”, “ele próprio eliminável”. Para mim, a abolição dos ciúmes depende da “abundância” sexual e sentimental, que possa reinar no meio em que o indivíduo se desenvolve, da mesma forma que a satisfação intelectual deriva da abundância cultural posta à disposição do indivíduo, do mesmo modo que aplacar a fome se deduz da abundância de alimento posto à disposição do indivíduo.


Quer se trate dum meio comunista, em que as necessidades se satisfazem sem reparar no esforço despendido, ou dum meio individualista, em que a satisfação de desejos se baseia sobre a reciprocidade da prestação de serviços, a situação é a mesma. Tanto um como outro o que desejam é que seus componentes sejam felizes, e não o são enquanto algum deles sofre sua mentalidade, sua fome, seus sentidos ou seus sentimentos insatisfeitos. O capricho, a fantasia, o “pior para ti”, a preferência, a “criança melindrosa”, para o isolado não há caso entre associados que nada podem se entre eles não reina um espírito de bom companheirismo que implique paciência, compreensão, concessões mútuas. E não apenas quando se trata de associados, mas até mesmo tratando-se de companheiros com pouca intimidade e que indo em pós do prazer individual, sem querer ocasionar o mínimo estorvo ao prazer do outro, se emanciparam de preconceitos, como a fidelidade sentimental, no inerente à coabitação, o proprietarismo conjugal e o exclusivismo sexual como sinal de amor geral.


É NA ABUNDÂNCIA, pois, de ofertas e procuras, de ocasiões, que vejo o remédio para os ciúmes. E de que maneira se arrumará esta abundância, para que ninguém seja posto de lado, não sofra, para dizer tudo? Eis aqui o problema a resolver. Na sua “Teoria Universal da Associação”, Fourier tinha-o resolvido, constituindo o matrimónio de tal forma “que cada homem possa ter todas as mulheres e cada mulher todos os homens”.


Não posso estender-me sobre as consequências desta ética sexual, a principal das quais é o desaparecimento da família. Afigura-se-me dificílimo que o comunismo anarquista, apesar do apego de muitos dos seus partidários à fórmula familiar, possa finalmente evitar esta solução, se quer permanecer consequente consigo próprio, ou seja não estabelecendo uma hierarquia de prazeres e necessidades. Não se concebe, efectivamente, que haja anarquistas que possam admitir distinções qualitativas entre as aspirações dos diversos apetites humanos.


O que mais atrai a atenção, quando se estudam a fundo as objeções formuladas contra a solução fourierista, é que as apresentadas pelos libertários se assemelham, como duas gotas de água entre si, aos protestos dos educadores religiosos e dos representantes do Estado contra aquela solução. Aqueles e estes vêem na união do casal e na agrupação da família uma garantia para a perpetuação do sistema de dominação espiritual ou laica. Daí a poesia, as frases enxudiosas, os panegíricos, com que acompanham as descrições do amor conjugal, da Família célula da sociedade. Além disso, se, por um lado, se persegue os partidários das concepções sexuais que contrariam os interesses dos dirigentes, eu ignoro a existência duma lei – desde o código de Hamurabi até os códigos soviéticos – que decrete alguma penalidade contra a exaltação do amor romântico ou da indissolubilidade do laço conjugal. Os que governam, ou seja, os que dominam, bem sabem o que fazem. Penso, por isso, que os comunistas-anarquistas chegarão a considerar a abundância a que atrás me referi (o comunismo sexual voluntário) como o remédio para todos os males do amor. Uma regressão notável a este respeito se verifica desde a guerra europeia, de 1914 -1918.


Outra questão se nos oferece: Poderá o remédio para o ciúme, o exclusivismo sentimental ou a apropriação sexual, remédio que eu resumirei na fórmula tomada a Platão todos para todas e todas para todos, conciliar-se com os princípios do individualismo-anarquista, convir a individualistas? Repondo: Convém certamente aos individualistas dispostos (para usarmos uma expressão de Stirner) a sacrificar algo de sua liberdade para que melhor se afirme sua individualidade. Que visam, associando-se, no domínio sentimental-sexual, determinado número de individualistas? Aumentar, manter ou reduzir cada vez mais o sofrimento? Se o que perseguem é este último objectivo, se é na desaparição do sofrimento que se afirma a sua individualidade de associados, entre eles, na esfera de que nos ocupamos, o amor perderá gradualmente o seu carácter passional para chegar a ser uma simples manifestação de companheirismo; o monopólio, a arbitrariedade, o reparo a dar-se desaparecerão cada dia mais, tornando-se cada vez mais raros. Chegar-se-á assim à fórmula acima expressa, porque nela encontrarão o melhor método para eliminar do seu meio os ciúmes sexuais e as suas consequências, porque, tendo que escolher entre diversos processos, a sua “livre escolha” deteve-se naquele.


Por outra parte, são somente eles os que se comprometem. Não são zelosos (é o caso de jamais sê-lo) de qualquer outro sistema escolhido por grupos diferentes para eliminar o ciúme.

 
Os partidários da abundância, como antídoto contra o ciúme, os organizadores de associações anarquistas com fins sentimentais ou sexuais, os propagandistas da “camaradagem amorosa”, não ignoram a que troças estão expostos por parte de excelentes camaradas ainda não emancipados de preconceitos correntes em matéria de moral sexual. Recordam-se, porém, do que escreveu em “Free Society”, num artigo solidamente esboçado sobre a “Pluralidade em Amor”, o anarquista-comunista F. A. Bernard: “Aqueles que se sentem bastante fortes e bastante entusiastas para atrever-se a serem os primeiros propulsores deste movimento podem animar-se pensando em que as antiquadas concepções do amor se dissolvem, queiramo-lo ou não, até o ponto de que a espécie humana toda inteira não sabe como sair do caos em que se debate. Podem ainda encontrar motivo de satisfação pensando em que vivem coerentemente com as ideias cuja realização assegurará ao ser humano uma existência normal e fértil”.

May 28

VIVA A GREVE GERAL DE 30 DE MAIO

GREVE GERAL SIM,

MAS GREVE GERAL ACTIVA

E COM OCUPAÇÃO DOS LOCAIS DE TRABALHO!

 

   Ontem com os governos “de direita”, hoje com o governo “de esquerda”, constatamos sempre o mesmo: um cada vez maior enriquecimento dos capitalistas em geral, com a banca, a finança e os grandes grupos capitalistas a ficarem com a parte de leão, à custa do aumento da exploração dos trabalhadores e do agravamento das condições de vida da grande maioria da população. Este facto, que também se deve à própria lógica interna do capitalismo, que se baseia no aumento constante da remuneração dos capitais investidos, é particularmente visível em Portugal, o país da União Europeia em que o fosso entre ricos e pobres mais se acentuou nos últimos anos.

 

   A situação actual apenas vem, mais uma vez, reforçar a convicção dos anarco-sindicalistas de que, se é vital para os trabalhadores e os deserdados em geral, lutarem e organizarem-se para resistir aos ataques de que são alvo e melhorar as suas condições de vida, não é menos importante compreenderem que só poderão acabar de vez com os privilégios e as injustiças  a que estão sujeitos, se destruírem o capitalismo e o seu órgão protector, o Estado, e substituírem a sociedade actual, baseada na exploração, na opressão e no princípio da autoridade, por uma forma de organização social baseada na ajuda mútua e na solidariedade e assente na federação livre das comunas livres, a nível local, regional e internacional, uma forma de organização social onde não haja lugar para a existência de privilegiados e deserdados, dirigentes e dirigidos, governantes e governados, organizadores do trabalho dos outros e trabalhadores.

 

   Não podemos ter quaisquer ilusões sobre a possibilidade de reformar o capitalismo (que é sempre portador de miséria, destruição e guerra), de criar o que alguns chamam um capitalismo de rosto humano, ao contrário do que afirmam, quer os partidos políticos, cujo objectivo supremo é a tomada, e a conservação, do poder político e respectivas benesses, quer os sindicatos burocrático-reformistas, apêndices dos partidos políticos e instrumentos da luta eleitoral destes últimos e, eles próprios, aspirantes a desempenhar um papel de peso, a par do patronato e do governo, na organização e gestão das empresas e na chamada concertação social. Partidos e sindicatos esses que, como é notório, vão criando ao longo do tempo uma vasta casta dirigente e privilegiada de políticos e burocratas sindicais, os quais progressivamente se afastam daqueles que chegaram a considerá-los como seus meros mandatários, transformando-se em políticos e burocratas sindicais profissionais.

 

   O capitalismo é irreformável, e nós apelamos à classe trabalhadora a autoorganizar-se em COMISSÕES E CONSELHOS DE TRABALHADORES POR LOCAL DE TRABALHO de forma a tomar em mãos o seu próprio destino, abrindo o caminho à supressão completa da opressão estatal e capitalista, à REVOLUÇÃO SOCIAL LIBERTÁRIA, IGUALITÁRIA E EXPROPRIADORA.

 

ABAIXO O CAPITALISMO E O ESTADO!

VIVA A GREVE GERAL ACTIVA E COM OCUPAÇÃO

VIVA O ANARCO-SINDICALISMO!

VIVA O COMUNISMO LIBERTÁRIO!

 

26/Maio/2007                                                                  Comissão de Relações da AIT-SP

 

  Associação Internacional dos Trabalhadores – Secção Portuguesa

 (Apartado 50029  /  1701-001 Lisboa       e-mail:aitport@yahoo.com )

April 27

Comunicado sobre a manifestaçáo antiautoritária contra o fascismo e o capitalismo.

Com o intuito de protestar contra a crescente visibilidade da extrema-direita e a sua componente racista e xenófoba, contra a cada vez maior exploração capitalista, contra a precariedade social imposta pelo capitalismo, contra o crescente totalitarismo democrático, pela liberdade, solidariedade e dignidade humana, por um mundo sem fronteiras, uma plataforma de grupos e indivíduos de várias tendências anti-autoritárias, anarquistas, anti-capitalistas e anti-fascistas convocou para o dia 25 de Abril pelas 18:00H na praça da figueira uma manifestação anti-autoritária.

A manifestação reuniu cerca de 400 pessoas que percorreram o Rossio, a Rua do Carmo e a Rua Garrett até ao Largo de Camões num ambiente contestatário mas festivo e sem incidentes. Muitos transeuntes aplaudiram e aderiram à manifestação. Após um breve período em que a manifestação permaneceu no largo Camões, esta continuou espontaneamente pela Rua Garrett em direcção ao Rossio.

A meio da Rua do Carmo, duas hordas de elementos do corpo de intervenção da PSP encurralaram os manifestantes na rua fechando as saídas e sem qualquer ordem ou aviso de dispersão começaram a agredir brutal e indiscriminadamente manifestantes, transeuntes e até mesmo turistas.Com isto a polícia não tentou dispersar ninguém, mas por outro lado quis bater, espancar e atacar os manifestantes. Pessoas que caíram no chão indefesas foram ainda agredidas por vários polícias à bastonada e ao pontapé. Aqueles que tentaram fugir foram perseguidas por toda a baixa e muitos transeuntes e lojistas somaram-se aos manifestantes no fundo da Rua do Carmo em protesto contra a brutalidade policial. As únicas agressões à polícia foram em legítima defesa, que é um direito ao qual não renunciamos.

Foram detidas doze pessoas de forma bastante violenta e é impossível contabilizar todos os feridos entre manifestantes e pessoas alheias ao protesto. Foi mobilizado um aparato policial desmedido (dezenas de carrinhas do corpo de intervenção da PSP com certamente mais de uma centena de elementos) que impôs o terror na baixa de Lisboa por várias horas.
Um grupo de indivíduos que se queria juntar à manifestação e que tinha ficado para trás foi cercado e escoltado até ao cais do sodré (possivelmente por causa da sua cor de pele).

Os detidos foram levados para a esquadra da 1ª divisão da PSP na Rua Gomes Freire onde foi negada qualquer informação aos seus amigos e durante muito tempo foi impedida a entrada aos advogados. Houve uma tentativa de levar os detidos a constituírem-se arguidos sem a presença dos advogados, o que é ilegal. Em solidariedade com os detidos cerca de 50 pessoas concentraram-se em frente à esquadra aguardando a sua transferência para os calabouços do comando da PSP de Lisboa. Mesmo em frente à esquadra a polícia continuou com o abuso de poder e expulsou as pessoas aos empurrões impedindo que estas pudessem continuar a demonstrar a sua solidariedade.

O que tem vindo a ser noticiado nos variados órgãos de comunicação social está repleto de incoerências e desvios daquilo que realmente aconteceu na baixa de Lisboa. Nomeadamente, a confusão com outras manifestações, a aceitação da versão policial dos acontecimentos e a necessidade de caracterizar como ilegal uma característica natural das pessoas que é o ajuntamento e a manifestação, que a democracia diz defender. Num período em que foram muitos os ajuntamentos, manifestações, acções e encontros este era também um protesto de repúdio aos tempos que se vivem e aos ataques constantes do poder contra as pessoas.

Caricatamente é no dia 25 de Abril que a polícia defende cartazes de partidos fascistas e ataca manifestações antifascistas.
Num momento em que já se sabia que os cravos estão murchos todos estes acontecimentos servem para o reconfirmar.


Plataforma antiautoritária contra o fascismo e o capitalismo.

April 13

Manifestação Anti Autoritária 25 de Abril Lisboa

Convocatória para uma manifestação anti autoritária,
Contra o Capitalismo, Contra o Fascismo
 
…/ Dia 25 de Abril, pelas 18 horas apelamos à participação activa num acto de resistência à farsa Nazionalista, que terá início na Praça da Figueira, depois da manifestação do 25 de Abril ter terminado.
 
Acreditamos que a impunidade e o à vontade com que os vários grupos “nazis” “fascistas” ou ditos “nacionalistas” agem tem de ser combatida aqui e agora, e sabemos que esse não é nem será nunca a tarefa de qualquer polícia ou instituição estatal, pelas suas afinidades e cumplicidades. A nossa denúncia é popular, não judicial.
 
Como tal, acreditamos que devemos exercer e expandir a autodefesa contra qualquer tipo de agressão por parte desses grupos que fazem o trabalho sujo que os capitalistas não querem fazer. Mas não nos esquecemos que quem financia tais grupos, quem os chama sempre que é preciso amedrontar os oprimidos, são os mesmos que controlam a economia, os estados, semeam a divisão, a desconfiança, a miséria e mantêm-nos presos no nosso medo, divididos nas nossas lutas, e “condenados” à derrota.
 
E è contra esses que dirigimos a nossa luta, ontem, hoje e enquanto existirem.
 
Esta manifestação, que é proposta por grupos libertários e autónomos, é aberta à participação de todas as pessoas e ideias que, de uma forma não partidária, desejam expressar a sua revolta e determinação, numa manifestação popular e unitária.
 
Queremos deixar bem claro que somos e seremos capazes de nos organizar para agir e reagir sempre que necessário. Desejamos que a manifestação seja uma prova de força e determinação, chegando até ao seu final sem problemas nem distúrbios. Mas nunca renunciaremos ao nosso direito de autodefesa.
 
Sabemos que ninguém é invencível, nenhum império, nenhum estado, nenhuma força de repressão, mas também sabemos que nada cai por si só.
 
Participemos todos na manifestação, activamente; os dias não estão para divisões, nem para apatia.
 
Dia 25 de Abril, unidos e organizados sem partidos nem estado. …/
October 12

Mais de seis meses de greve e resistência

SOLIDARIEDADE COM OS GREVISTAS DA MERCADONA (BARCELONA),

EM GREVE HÁ MAIS DE SEIS MESES!

REINTEGRAÇÃO PLENA DOS 6 TRABALHADORES DESPEDIDOS!

(Se vais ou estás em Espanha não compres nos supermercados mercadona)

 

  A greve no centro logístico da Mercadona - cadeia espanhola de supermercados -, em Sant Sadurní d'Anoiateve (Barcelona), foi declarada como resposta ao despedimento de três trabalhadores da secção sindical da CNT-AIT (Confederação Nacional do Trabalho – organização anarco-sindicalista e secção espanhola da Associação Internacional dos Trabalhadores) na empresa, dado que estes sempre denunciaram as condições de trabalho e o ambiente repressivo em que se trabalha na Mercadona. A administração da empresa imaginou que, desta forma, dificultaria a acção sindical da CNT-AIT, sobretudo entre os trabalhadores imigrantes. De facto, desde que a administração da Mercadona foi informada pela CNT-AIT da criação da sua secção sindical, aumentou a perseguição e intimidação, por todos os meios, dos trabalhadores da empresa, em particular dos militantes da CNT-AIT. A greve foi convocada por 10 dias, tendo-se entretanto transformado em greve indefinida. Note-se que estes três despedimentos foram já considerados sem justa causa pelos tribunais de trabalho. Em 28 de Setembro, a Mercadona despediu mais dois trabalhadores, membros do Comité de Greve e da secção sindical da CNT-AIT e, em 10 de Outubro, novo despedimento de mais um grevista. As exigências dos trabalhadores da Mercadona são:

 

-         Readmissão dos 6 trabalhadores despedidos;- Pagamento da meia hora de descanso, que deixou de contar para efeitos de contagem de tempo efectivo;

-         Cumprimento das normas de segurança e higiene no trabalho;

-         Fim das perseguições e intimidações dos trabalhadores;

-         Reconhecimento da CNT-AIT, assim como dos seus delegados;

-         Introdução de uma cláusula de garantia de trabalho (em caso de despedimento julgado sem justa causa, ser o trabalhador a decidir se regressa ou não ao seu posto de trabalho).

 

 A greve indefinida iniciou-se em 23 de Março, prosseguindo em condições muito duras, já que a Mercadona, rede de supermercados com lojas em toda a Espanha, trouxe fura-greves para substituir trabalhadores grevistas. De início, a Mercadona impediu a entrada do Comité de Greve nas instalações da empresa, porém acabou por ser forçada a deixar entrar o Comité de Greve acompanhado pela Inspecção do Trabalho. As autoridades locais e a polícia tentaram impedir a realização de manifestações dos trabalhadores grevistas. Como estas manobras não funcionaram, a Mercadona tentou comprar o despedimento dos trabalhadores a troco de 300 mil euros, o que estes prontamente recusaram.

 

 Em 18 de Setembro, após quase seis meses de greve total, os trabalhadores decidiram passar a greve parcial indefinida (24 horas de greve todas as quintas-feiras), conseguindo, com esta nova estratégia, que mais trabalhadores aderissem à greve.

 

 A CNT-AIT, com o apoio de organizações e indivíduos solidários do mundo inteiro, tem feito tudo o que é possível para apoiar a greve, nomeadamente para garantir que os trabalhadores e suas famílias não necessitem de passar fome para manter esta greve, que prevê que se possa prolongar ainda mais. A CNT-AIT apela à solidariedade internacionalista com os trabalhadores da Mercadona, através de contribuições para a Caixa de Resistência e através de actos de protesto e solidariedade junto das Embaixadas e Consulados espanhóis.

 

 Nº de conta bancária da Caixa de Resistência:

2100 (La Caixa) - 1183 - 35 – 0100505773

EUROPA: IBAN: ES08 2100 1183 3501 0050 5773

RESTO DO MUNDO: BIC (Swift): CAIXESBBXXX 2100 1183 3501 0050 5773

 

 Mensagens de solidariedade poderão ser enviadas para a Federação Local da CNT-AIT de Barcelona, para o seguinte endereço: sov@barcelona.cnt.es

 

 Da mesma forma, é importante enviar cartas de protesto contra a actuação da Mercadona e de apoio aos seus trabalhadores para:

 

 Mercadona, S.A.

CIF:A-46-103834

C/ Valencia, nº 5

Tavernes Blanques

VALENCIA - C.P.46016

ESPANHA

 

 (mais informação em: http://barcelona.cnt.es)

 

  ESPANCAMENTO BRUTAL DE UM MEMBRO DO COMITÉ DE GREVE DA MERCADONA

 

 J. C., militante da CNT-AIT e membro do Comité de Greve de Mercadona, foi abordado, em 28 de Setembro, cerca da meia-noite e perto da sua casa, por um grupo de cinco indivíduos que, após lhe terem dito “Então és grevista da Mercadona?” o espancaram cobardemente, aos gritos de “Isto é pela Mercadona”, até o abandonarem estendido no chão, sangrando e inconsciente. O nosso companheiro foi recolhido por uma ambulância, que se presume terá sido chamada por moradores da zona, e tratado, na Cruz Vermelha, a traumatismos cranianos, contusões na omoplata esquerda, na cara e ferimentos vários.

 

Apesar de todas as pressões a que os trabalhadores da Mercadona têm sido  sujeitos (tentativas de impedimento das suas manifestações em Barcelona, utilização de fura-greves para substituição dos trabalhadores grevistas, não reconhecimento da secção sindical da CNT-AIT na empresa nem do Comité de Greve, tentativa de compra dos grevistas por 300.000 euros, repetidos contactos individuais, quer com grevistas, quer com outros trabalhadores considerados indesejáveis, para as chamadas rescisões amigáveis de contrato, etc), a que se soma esta cobarde agressão do nosso companheiro, o ânimo de continuação da greve até à satisfação das reivindicações dos trabalhadores da Mercadona não se tem esmorecido, antes pelo contrário.

 

De facto, a CNT-AIT, organização sindical anarco-sindicalista, recusar-se-á sempre a trocar os direitos dos trabalhadores e a sua dignidade enquanto produtores e enquanto pessoas por quaisquer hipotéticas “vantagens”, pecuniárias ou outras, quer para os trabalhadores, quer para si própria. Fiel aos seus princípios de sempre, a CNT-AIT continuará a defender a prática da acção directa, isto é, sem quaisquer intermediários, entre os trabalhadores e aqueles que directamente os exploram e oprimem e, portanto, continuará a recusar a participação nas eleições para os comités de empresa e a participação na chamada concertação social, que mais não são do que meios de atrelar os trabalhadores e as suas organizações ao carro do Estado e do Capital.

 

SOLIDARIEDADE COM OS GREVISTAS DA MERCADONA!

 

SOLIDARIEDADE COM A CNT-AIT!
 
August 20

Cristo é um mito.

 

     A Bíblia fornece-nos uma prova ainda maior que todas as aduzidas até agora, contra a existência de Cristo. Esta prova está precisamente na nossa moral.

     Essa moral, que os apologistas ergueram até aos céus e agora a crítica vai, passo a passo, destruindo, ao desfazer as ilusões criadas em torno da lenda e da idealidade humana - essa moral é a prova mais firme e segura de que Cristo não existiu, porque a moral que os Evangelhos lhe atribuem não pode ser obra de um homem, mas apenas a de uma teologia determinada.

     Esta é sectária de mais e excessivamente irrealizável para que pudesse ser ensinada e praticada por um homem: é completamente oposta às preocupações teológicas e metafísicas de uma seita.

     Há, é certo, máximas realmente morais e boas nos Evangelhos, mas que não podem entusiasmar um espírito positivo, por místico que seja, se bem que esta parte boa da moral cristã, sem a qual o cristianismo não teria podido desenvolver-se... não é... cristã - como mais adiante veremos.

     As máximas - não faças a outrém o que não queres que te façam e faz aos outros o que desejas que te façam - não são uma criação de Cristo, ou dos Evangelhos, porque pré-existiam já no Antigo Testamento, onde estavam desde a moral metafísica das religiões orientais, principalmente da budista e da zendista ou persa.

     Suprimindo todas estas máximas, que não pertencem ao cristianismo, e são, além disso, prova contrária à existência de Cristo, o resto da moral evangélica é condenável, sem remissão, e seria bastante para execrar o homem que a criasse, se fosse obra de um só homem.

     E a Humanidade, que cresceu nas doces ilusões de que o Cristo fora a personificação de todas as perfeições humanas, concentrando nele toda a idealidade... a Humanidade, tornada adulta, deve reconhecer que, na sua adolescência, foi vítima de uma enorme mistificação.

     Os que neste ponto se encontram na verdade, verão por que motivo determinados cristãos da nossa época, como Tolstoi e certos reformadores, alucinados pela lenda, julgando‑se talvez continuadores de Cristo, se regozijam em manter as antigas ilusões, opostas a toda a evidência, a todo o conhecimento sereno e crítico do assunto (1).

     Mas, nem as classes dominantes, nem a casta sacerdotal, que, além da ilusão, tem interesse em perpetuar a mistificação duas vezes milenária - nem elas sequer poderiam impedir que a luz da razão ofusque a moral evangélica... Poucos séculos há que esta luz começou a brotar das inteligências, e, a não ser pelo receio que existe em dizer à Humanidade verdades tão amargas, de a privar tão bruscamente de uma ilusão que, por o ser, constitui uma grande força moral - na hora presente a crítica teria já, não só arrojado dos altares este último ídolo, mas até o teria já precipitado na Geena.

     O que, porém, até hoje se não fez, faz-se, deve fazer-se agora, porque a Verdade não reconhece compromissos nem fraquezas humanas e porque a lógica não se sente satisfeita, se não chega até às últimas consequências.

     A ciência, de resto, não tem que se preocupar com consequências.

     Pois bem: enquanto a crítica trabalhe na demolição do ídolo cristão e das ilusões de uma moral superior que torna respeitável, mesmo a alguns incrédulos, e enquanto destrua o velho erro de acreditar na existência de Cristo, mudando em execração a veneração, tantas vezes secular, da Humanidade, por este ideal de perfeição por ela mesma criado - nós, pelo contrário, poupemos à humanidade a dor de lhe destruirmos o objecto da sua maior veneração, demonstrando-lhe que os defeitos da moral cristã não são imputados àquele Cristo, que nunca existiu, mas sim à teologia que o criou.

     E, entenda-se bem que, em nós, não influem preocupações de nenhuma índole estranha à verdade: nem a finalista daquele que crê, nem a utilitária do nosso sistema. Nada diremos da primeira, porque não nos compete, e acerca da segunda, advertiremos que queremos aproveitar para a nossa tese os defeitos anti‑humanos da moral cristã, que entram a fazer parte do nosso quadro, atraídos pela força irresistível da Verdade (2).

     Se os Evangelhos abundam em máximas desumanas, tantas e de tal calibre que um homem real, desta terra, não teria ousado concebê-las e muito menos pregá-las, sem ir para um manicómio ou para um cárcere, não é evidente que tal circunstância depõe contra um carácter histórico daquele homem e a favor da sua criação puramente mitológica, simbólica e, sobretudo, teológica?

     Vamos, porém, a factos, para nós mais eloquentes.

     A moral evangélica, tiradas algumas máximas boas que não são suas, pode dividir-se em duas grandes categorias: a das máximas irrealizáveis ou desumanas e a das máximas sectárias. E não se diga que tais máximas são puramente mentais, porque tanto as humanas são sectárias, como estas são desumanas, pois umas e outras têm por fundamento comum o carácter teológico, que denuncia a sua origem impessoal e a sua formação sistemática e eclesiástica.

     Comecemos pelo princípio. Em S. Mateus (X, 34, 37) Cristo discorre deste modo: "Não julgueis que vim trazer a paz à Terra; não vim trazer a paz, mas sim a espada. Vim trazer a discórdia do filho contra o pai, da filha contra a mãe, da nora contra a sogra. Quem ama seu pai e sua mãe mais do que a mim, e quem ama seu filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim."

     Em S. Lucas (XIV, 26) exprime-se assim: "Se alguém vem a mim e não odeia seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo."

     Em S. Mateus (VIII, 21, 22) a alguém que lhe pedira autorização para sepultar seu pai, Jesus diz-lhe: "Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus mortos."

     Em S. Lucas (IX, 61) lê-se: "Eis aqui um que diz: - Seguir-te-ei, senhor, mas, primeiro, deixa-‑me ir dispor do que tenho em minha casa. Jesus disse-lhe: - Quem põe a mão no arado e olha para trás, é digno do reino de Deus."  

     Em S. Mateus (XIX, 12) Jesus aconselha os seus discípulos a praticarem a castração voluntária, para que se façam dignos do reino dos céus.

     "Quem não odeia a sua própria vida, não pode salvar-se", - diz Jesus em S. Lucas (XIV, 26).

     E em S. João (XII, 25): "Quem amar a sua vida, perdê-la-á, e quem a odiar neste mundo, conservá-la-á na vida eterna."

     Jesus aconselha também a que não trabalhem; a que se não preocupem com a comida, com a bebida, com os vestuários; a que não pensem no dia de amanhã: que imitem as aves do céu, que não trabalham, e os lírios do campo, que não se cansam nem fiam (Mateus, VI, 24, 34). Prefere Maria, que troca os labores domésticos pelo ascetismo, a Marta, que, por si só, tem de realizar todos os trabalhos da casa (Lucas, X, 39, 42).

     Quer que o homem viva na mais absoluta pobreza, na indigência mais miserável: "Nenhum de vós", diz ele em S. Lucas (XIV, 33), "que não renuncie a quanto tenha, pode ser meu discípulo."

     A própria dignidade humana não lhe merece a mais insignificante consideração.

     "Não resistas ao mal", diz em S. Mateus (V, 39); "e se alguém te ferir na face direita, apresenta-lhe a outra. E aquele que quiser demandar-te em juízo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. E ao que te obrigar a ir carregado mil passos, vai com ele outros dois mil a mais."

     Não é preciso muito engenho nem muita eloquência para provar que esta moral não é realizável, por desumana, isto é, por contrária às leis biológicas e sociológicas, incompatível com a conservação e progresso da espécie humana. Basta expô-la: por si própria se condena.

     Passemos agora às máximas sectárias da moral evangélica.

     O amor pregado pelos Evangelhos não se dirige a todos os homens, mas apenas aos hebreus. Jesus ordena aos seus discípulos que preguem o seu Verbo unicamente aos hebreus, e proíbe-os de entrarem na cidade dos gentios e dos samaritanos (Mateus, X, 5, 7). Diz que os doze apóstolos se sentarão em doze tronos para julgarem as doze tribos de Israel (Mateus,     XIX, 28). Portanto, a sua missão limita-se única e exclusivamente aos hebreus: é um mesquinho nacionalista.

     Tanto assim é, que ele próprio responde a Cananeia, que lhe pedia a cura da sua filha: que fora enviado só para Israel. Acrescentando não ser justo tirar o pão aos filhos para o deitar aos cães (Mateus, XV, 22, 26). E quando em S. João (XVII, 9, 20) pronuncia a sua última prece, declara que pede só pelos que nele crêem.

     Mais imoral e mais sectário ainda é o dogma da predestinação. "Ninguém pode vir a mim", diz Cristo, "se o Pai que me enviou não o trouxer." (João, VI, 44). Por isso declara que adoptará a parábola com os que não forem seus discípulos, para que não compreendam as suas palavras e não possam salvar-se (Lucas, VIII, 10).

     Este dogma imoral, ou sectário, se assim querem, foi posto de propósito na parábola do dono de casa, que representa Deus, o qual chama, ele próprio, a diversas horas, os operários da sua vinha, pagando-lhes depois a todos por igual. E aos que censuram a sua parcialidade, responde, em S. Mateus (XX,1, 6): "Não terei eu direito a fazer, do que é meu, o meu entender? Os últimos serão os primeiros e os primeiros os últimos; por isso, muitos serão os chamados e poucos os eleitos."

     E sempre, deste modo, e segundo esta preocupação teológica, ensina que "todo aquele que se exalta será humilhado e o que se humilha será exaltado" (Lucas, XIV, 11); que "àquele que tem ser-lhe-á dado e terá em abundância, e àquele que não tem, até o que não tem lhe será tirado" (Mateus, XIII, 12; Marcos, VI; Lucas, XVIII); que "mandou ceifar os que não lavraram, fazendo-lhes disfrutar do que outros lavraram" (João, IV, 38); que "dos pobres será o reino dos céus, sem outro mérito mais do que a sua pobreza, ainda que sejam vagabundos; que os ricos serão castigados, só por suas riquezas, embora sejam bons" (Lucas, VI; Mateus, XIX; Marcos, X). A mesma inspiração é reconhecida pelas parábolas do conviva castigado sem culpa (Mateus, XXII, 8, 13) e do filho pródigo (Lucas, XV). O dogma da predestinação encontra-se, pois, na Bíblia, erigido em verdadeira doutrina de S. Paulo (3).

     O carácter, a origem, o próprio fim teológico da moral evangélica, estão comprometidos pela circunstância desta moral se basear, não nas boas obras, mas na crença e no culto.

     Ensinava, além disso, "que quem tiver acreditado e tiver sido baptizado, será salvo, mas quem não tiver acreditado, será condenado (4).

     Esta máxima está em relação com a outra, onde Jesus diz aos discípulos que "os que não escutarem suas palavras serão tratados no Dia do Juízo mais severamente do que os habitantes de Sodoma e Gomorra (Mateus, X, 13;  Marcos, VI; Lucas, IX).

     Donde se deduz que, para a moral evangélica, são preferíveis os delinquentes vulgares, contanto que sejam crentes, aos incrédulos, ainda que sejam honrados.

     Esta moral só pode ser teológica. Está em relação com a moral de todo o Antigo Testamento, que, como já demonstrámos, é obra quase exclusivamente teológica, e que, em muitos lugares, cita a máxima referida, transtornando toda a ordem moral e baseando esta nas práticas do culto e nas crenças (5). O coroamento deste sistema é a eternidade das penas, pregadas pelo manso cordeiro de Nazaré (Mateus, XXV, 41-46; XVIII, 8), e o perdão ao inimigo, dado nesta vida apenas, para lhe aumentar na outra os carvões acesos (Epist. aos Rom., XII, 20).

     Onde principalmente se destaca o carácter sectário, teológico e verdadeiramente sacerdotal da moral evangélica, é na pregação das perseguições religiosas. Não só com o famoso compelle intrare, Cristo, ou antes, os que escreveram com a máscara do seu nome, proclamaram a legitimidade da perseguição religiosa (Lucas, XIV, 16-24), mas até os Evangelhos, propriamente ditos, são a pura expressão dessa evidência absoluta em pró desta perseguição. No capítulo XIX de S. Lucas, versículo 27, Jesus põe na boca de um dos personagens das suas parábolas, que é ele próprio, as seguintes palavras: "E quanto àqueles dos meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-mos aqui e tirai-lhes a vida na minha presença." Segundo S. Mateus (XII, 30) e segundo S. Lucas (XI, 23), Jesus disse que todos os que não estavam com ele estavam contra ele, palavras estas que querem significar, necessariamente, que o cristão deve ter por inimigo aquele que não o é.

     No capítulo VII de S. Mateus, adverte os seus discípulos de que se guardem dos falsos profetas, que são semelhantes às árvores que dão maus frutos.

     E acrescenta que toda a árvore que não der bom fruto deve ser cortada e arremessada ao fogo.

     No capítulo XV de S. João, Jesus disse textualmente:

     "1. Eu sou a verdadeira vide, o meu pai é o lavrador.

     2. Toda a vara que não der fruto em mim, ele a tirará.

     5. Eu sou a vide, vós outros as varas...

     6. O que não permanecer em mim, será arremessado fora, como a vara, e secará e enfaixá-lo-ão e o arrojarão ao fogo e arderá."

     S. Paulo, repetindo a doutrina dos provérbios (XXIV, 17, 18; XXV, 21, 22) aconselha que se dê de comer ao inimigo que tenha fome e de beber ao que tenha sede, para amontoar sobre a sua cabeça carvões acesos, isto é, para que Deus o possa castigar infinitamente (Epist. Rom., XII, 20).

     As máximas da moral evangélica explicam-se perfeitamente sob o ponto de vista teológico, isto é, da intolerância irmanada com o preconceito religioso. A Igreja Católica encoleriza-se contra os que lhe recriminam as suas perseguições religiosas e autos de fé, porque o fundamento destes se encontra na própria moral evangélica.

     É na Bíblia que se encontram as primeiras execuções e apologias da intolerância, com o auto de fé realizado por S. Paulo em Efeso, onde queimou grande número de livros, cujo valor, segundo os Actos dos Apóstolos, se elevava a 50000 dinheiros de prata (XIX, 19). E o apóstolo S. João testemunha que "o que se revolta e não permanece na doutrina de Cristo não possui a Deus, e quem não o segue, não deve ser recebido em casa e nem sequer saudado."

     Por fim, é ainda o mesmo Cristo dos Evangelhos que leva a cabo a instituição da excomunhão, colocando no número dos adversários da Igreja aqueles que com ela se não conformam (6).

     Pregando a intolerância e a perseguição religiosas, Cristo, ou antes, a casta sacerdotal que o inventou, não faz mais do que manter a tradição do Antigo Testamento, onde as incitações ao ódio teológico e às perseguições dos incrédulos, se encontra a cada passo (7).

     Mas, ao mesmo tempo, deixou a descoberto a origem meramente teológica do mito que deu lugar a Cristo, por mais que seja próprio da casta sacerdotal minar as máximas fundamentais da moral humana, para impor o domínio daquela sobre esta, animada pelo preconceito religioso e constituindo-se única e exclusiva depositária da verdade absoluta (8).

     As acções que os Evangelhos atribuem a Cristo, respondem, também, por uma parte, ao espírito sectário da teologia, e, por outra, à preocupação constante da vida ultramontana, que torturava constantemente o pensamento dos seus inventores.

     Recusa Cristo receber sua mãe e seus irmãos, que tinham ido procurá-lo, dizendo que os seus únicos parentes são os seus discípulos.

     Quando, aos doze anos, deixou a casa de seus pais, estes, fartos de pesquisas e cheios de vivas inquietações, encontraram-no, ao cabo de três dias, em Jerusalém, e Jesus responde secamente às doces advertências deles: "Por que me procurais?" (Lucas, II, 41).

     Quando, nas boda de Canaã, sua mãe lhe observa que os comensais já não têm vinho, responde brutalmente: "O que há de comum entre mim e ti, mulher?" (João, II, 1, 40).

     Quando seus irmãos o convidam a ir a Jerusalém, pela festa do Tabernáculo, diz que não, mas, apenas eles partem, logo parte também, às ocultas (João, VII, 2).

     Em muitos casos, entretém-se, enganando os que lhe falam, falando ele, por sua parte, para não ser compreendido (João, II, 21; III; IV; VI).

     Outras vezes, atribui a si próprio uma missão obscurantista (João, IX, 39). Outras, enfim, invectiva, sem razão alguma, os escribas e fariseus (Mateus, III, 7), porque se fazem baptisar, embora reconheça que são partidários da lei de Moisés, aconselhando que se faça tudo o que ela ensina (Mateus, XXIII).

     Declara que estes estão irremissivelmente condenados ao inferno, a fim de que todo o sangue inocente derramado sobre a terra desde Abel e Zacarias, caia sobre eles (Mateus, XXIII, 13), sustentando assim a doutrina da reversão das penas condenadas pelos próprios profetas.

     Quando Pedro teve notícia do fim que levava Jesus, fez voto de que tal não sucedesse. Porém, Jesus apostrofou-o,  chamando-lhe Satanás (Mateus, XVI, 22; Marcos, VIII, 32).

     Na parábola do mordomo infiel, aprova o furto (Lucas, XVI, 1-9), apoiando-se S. Irineu no versículo 9 do capítulo XVI de S. Lucas para reivindicar aos Isrealitas, que no Antigo Testamento, por conselho de Deus, da Bíblia e de Moisés (Êxodo, III, 21-22), tinham roubado aos egípcios os seus vasos de ouro e prata e suas vestimentas.

     Falando pacificamente ao povo, encoleriza‑se de improviso chamando hipócritas aos ouvintes, sem que motivo algum justifique a mudança de sentimentos (Lucas, XII, 56).

     Faz-se manter pelas mulheres dos outros (Lucas, VIII, 1-3). Cerca-se de gente faminta (Marcos, II, 16) e vagueia com os discípulos, sem respeitar a propriedade alheia (Marcos, II, 23).

     Faz atirar ao mar uma manada de porcos, sem pensar no prejuízo causado aos seus donos (Mateus, VIII; Marcos, V; Lucas, VIII). Ordena aos apóstolos que não saúdem ninguém quando em viagem (Lucas, X) e prega, em suma, o egoísmo (Lucas, XIV, 12), a hipocrisia e a vaidade (Lucas, XIV, 10).

     Poderíamos continuar, indefinidamente, demonstrando que o carácter e a doutrina moral de Cristo são, sempre, segundo a Bíblia, coisa bem diversa daquele ideal de perfeição que a Humanidade formou. Mas, para que continuar? Basta-nos ter provado que a moral de Cristo não é, não pode ser a moral de um homem, mas sim a de uma seita teológica, e, precisamente, da casta sacerdotal, preocupada, não com a Humanidade e com a realidade da vida, mas sim, de preferência, com o interesse da Igreja e com a salvação da alma.

 

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Notas:

(1) - Um dos fenómenos mais extraordinários da nossa época, rico de ensinamento, é o facto de apelarem para Cristo, tanto os revolucionários como os déspotas. E têm razão uns e outros. Umas vezes Cristo prega a resignação. S. Paulo chega a proibir que se reclame e faça justiça (Cor. VI - 7) e declara que, imanando de Deus todo o poder, serão por ele condenados todos os que oponham resistência (Rom. XIII, 1-‑2). Isto é para os déspotas. Para os revolucionários, e para os próprios anarquistas, Cristo não só exalta a pobreza, mas até considera o governo como um abuso, e todo o magistrado como o natural inimigo dos homens e de Deus (Mateus, X, 17 e 18; Lucas, XIII, 11). Não é, porventura, edificante essa duplicidade do cristianismo? Não serão ingénuos os que baseiam as suas esperanças e os seus privilégios numa moral tão absolutamente contraditória? Não se verá que semelhante moral não pode ser obra de um homem só?

(2) - Os defeitos da moral cristã são tão evidentes, que muitos católicos eruditos, não podendo negá-los e não querendo abandonar a fé, os colocaram entre as provas da divindade desta religião, fazendo o mesmo raciocínio que o hebreu Abraão, o qual, tendo visto em Roma as torpezas da corte pontífica, se fez cristão, dizendo que se esta religião pôde triunfar e subsistir apesar de tanta corrupção, é porque tinha a protecção de céu!

     Citemos, como exemplo, Nicolau Tomásio, que disse: "Soldados pagãos, contratistas gerais, mulheres a quem o mundo chama perdidas, um homem que mente e atraiçoa o seu amigo, outro que protege os que se dedicam a lapidar inocentes - eis os eleitos de Cristo! Esses querem que a história dos seus prodígios e das suas virtudes registe entre os antepassados do Salvador do mundo um fornicador, uma meretriz, uma adúltera, um rei traidor e homicida. Estes pensamentos humilham o espírito, mas abrem o coração à severidade para nós próprios, e à caridade para com o próximo!...".

(3) - O dogma da predestinação constitui um retrocesso em relação ao politeísmo greco-romano, que punha a justiça e a Humanidade acima dos próprios deuses, quando eles não respeitavam as leis da natureza e da consciência.

(4) - Marcos (XVI, 16). Noutros lugares, Cristo prega a moral independente do culto. Esta é uma outra das numerosas contradições irreconciliáveis, que provam que ele não é pessoa real, mas um objecto de especulações da mais disparatada das escolas teológicas.

(5) - Muitos são os exemplos do Antigo Testamento que podem aduzir-se. Limitar-nos‑emos a citar a instituição do bode expiatório (Levítico, XVI) e a da água da purificação. Em geral, todo o espírito que anima a Bíblia se baseia na moral religiosa. A Bíblia não mede o mérito ou demérito das pessoas, sob o ponto de vista das boas ou más acções, mas apenas segundo a sua devoção.

     Aqui temos, entre muitos outros, o exemplo de Achab. Nos capítulos que lhe são consagrados no Antigo Testamento, este rei de Israel é acusado de ímpio e tratado com a maior aspereza, apesar de não ter cometido as iniquidades de David e de Salomão, tão injustamente exaltados pela Bíblia. Pelo contrário, Achab é um bom rei, humanitário, generoso, magnânimo. Mas poupou a vida ao rei da Síria, Bebadad, que não acreditava no Deus da Bíblia, e por isso conquistou o ódio da casta sacerdotal. Temos, porém, David e Salomão, que cometeram toda a espécie de iniquidades, mas favoreceram a casta sacerdotal: logo a Bíblia os elevou até às nuvens. Mais ainda: Ehu, o infâme Ehu, era dado à leitura dos sacerdotes. Bastou isso para que a Bíblia o enaltecesse.

     Vejamos ainda, mais tarde, dois imperadores, Juliano e Constantino: o primeiro foi um modelo de virtudes, mas nada quis com o cristianismo. O segundo, que foi um miserável, assassinando a própria família, é enaltecido pela Igreja, só porque favoreceu a mesma Igreja.

(6) - Mateus (XVIII, 17). Aqui, Jesus, falando da Igreja, falta à fábula, porque a Igreja não podia ainda existir no seu tempo, pois que só devia ter vindo depois dele e por ele. Daqui se depreende que os Evangelhos foram escritos quando a Igreja estava já constituída, pondo-se na boca de Jesus o que ele não poderá ter dito, inventando-se, por isso, sem o menor escrúpulo.

(7) - Como tese geral, pode afirmar-se que o Antigo Testamento não é mais do que a escola das perseguições religiosas. Citemos, como exemplo, as perseguições seguintes: Moisés faz exterminar, por ordem de Deus, 24000 isrealitas, que tinham sacrificado perante o Deus Baal, e ordena a carnificina de todos os moabitas, incluindo mulheres e crianças, só porque tinham induzido os isrealitas à apostasia. Bastava o facto de alguém incitar a que  se adorassem deuses estranhos, para ser castigado com a morte.

     E o incitador devia ser morto, precisamente por seu pai, por seu irmão, por sua esposa ou por um seu amigo.

     O livro dos Judeus não é mais que uma alternativa perpétua de apostasias por parte dos hebreus e de horríveis castigos por parte do Deus bíblico. Elias manda exterminar 850 profetas de Baal. O profeta Eliseu ordena atrozes perseguições religiosas. Josias é bem visto por Deus, devido às suas perseguições ferozes contra os outros cultos. Nos Salmos, as perseguições religiosas são exaltadas, invocadas e abençoadas por Deus. Jeremias pede o extermínio dos infiéis. Outro tanto se lê em Isaías. O Eclesiástico é do mesmo parecer. Nos Macebeus, o sumo pontífice Matatias estrangula um herege sobre um altar.

     De tudo isto se vê que a Igreja Católica imitou bem os exemplos de violência e de intolerância da Bíblia. Fazendo-se perseguidora e inquisitorial, seguiu apenas a Bíblia judaico-‑cristã.

(8) - Na Bíblia há muitos exemplos a favor dos privilégios da casta sacerdotal. Assim, tendo os filisteus tomado a Arca do Senhor, o Deus da Bíblia mata-os, como quem mata moscas, pelo que eles se resolvem a entregá-la, de novo, aos isrealitas. Durante a viagem, a Arca Santa tem uma paragem entre os betsamitas, que a recebem com alegria e holocaustos. Mas, a meio desta adoração, o Deus da Bíblia faz morrer 50070 pessoas, simplesmente porque se tinham atrevido a guardar a Arca. Estes e outros exemplos demonstram que a Bíblia não é, de modo algum, uma obra histórica. É apenas uma obra teológica da casta sacerdotal.

July 06

Sobre inexistencia de Cristo

     Se Cristo nunca existiu, como e por que razão foi inventado ou imaginado?

     A esta pergunta responderá o presente capítulo do nosso trabalho, onde exporemos uma nova e luminosa prova contra a existência humana, real e objectiva de Cristo.

     Além disso, se demonstrarmos que outros personagens análogos, senão idênticos a Cristo, o precederam na história das ideias humanas ou nos tempos dos conceitos representativos; se provarmos que os predecessores de Cristo, os mesmos que deram a este todos os elementos da sua vida, do seu pensamento e da sua missão, não foram mais do que simples mitos - teremos demonstrado também que Cristo não é apenas uma cópia, mas um mito igual, de onde se concluirá, logo, que nunca existiu, a não ser na imaginação daqueles que têm acreditado nele.

     Começaremos por passar uma vista de olhos sobre a vida e milagres dos Deuses Redentores que precederam Cristo, e da qual veio o mito cristão, pois que Cristo não é mais do que a repetição do mesmo tema mitológico.

     A antiga Índia teve mais do que um Deus Redentor. Porque, nessa região, onde o maravilhoso e o sobrenatural têm a sua origem, o Deus Redentor Vixnu encarnou nove vezes, tomando forma humana para redimir a Humanidade do pecado original.

     Para o nosso trabalho só é interessante a oitava e nona avatar ou encarnação de Vixnu, que na oitava assume a pessoa de Crixna e na nona se encarna em Buda.

     Crixna, o Redentor indiano, nasce de uma virgem, a virgem Devanagui, e a sua vinda está vaticinada nos livros sagrados indianos (Aterva, Vedangas, Vedanta). O mesmo Vixnu, o Deus bom e conservador, aparece a Lakshmi, mãe da virgem Devanagui, para lhe revelar os futuros destinos daquela que estava para nascer e para lhe indicar o nome que devia impor à mãe do Redentor, recomendando-lhe, finalmente, que não una a sua futura filha em matrimónio com pessoa alguma, atendendo a que se deviam cumprir os desígnios de Deus (1). Isto tinha lugar uns 3500 anos antes da nossa era e no palácio do rajá de Madura, pequena província da Índia oriental. A menina recebe ao nascer o nome de Devanagui, conforme o que estava escrito.

     O rajá teve um sonho em que se viu expulso do trono pelo filho que nasceria de Devanagui. Por esta razão, o tirano de Madura fez encerrar Devanagui numa torre e soldar a porta para evitar toda a possibilidade de fuga, colocando ainda um valente guarda à vista da prisão. Tudo foi, porém, inútil. A profecia de Pulastia não podia ser impedida: "E o espírito divino de Vixnu atravessou as paredes para se unir à sua amada". Certa noite, enquanto a Virgem orava, uma música celestial veio de improviso deleitar os seus ouvidos, iluminou-se a prisão e Vixnu apareceu diante dela com todo o esplendor da sua divina majestade. Devanagui foi ofuscada pelo espírito de Deus, que queria encarnar-se, e concebeu. Na noite do parto, e enquanto o recém-nascido exalava os primeiros vagidos, um vento fortíssimo desmoronou o muro da prisão, e a Virgem foi transportada com o filho por um mensageiro de Vixnu, a uma cabana de pastores pertencente a Nanda.

     O recém-nascido foi chamado Crixna.

     Quando os pastores souberam do depósito que se lhes tinha confiado, prostraram-se diante do filho da Virgem e adoraram-no.

     O tirano de Madura, sabedor do parto e da fuga de Devanagui, encolerizou-se em extremo, e ordenou uma matança geral de todos os meninos, nascidos nos seus Estados durante a noite em que Crixna tinha vindo ao mundo.

     Um pelotão de soldados sai imediatamente para o redil de ovelhas de Nanda, mas Crixna escapa milagrosamente.

     São quase inenarráveis os episódios dos primeiros anos de Crixna, que saía sempre vitorioso dos perigos e laços que lhe armavam os que queriam a sua morte, homens ou diabos.

     Aos dezasseis anos Crixna abandona os seus parentes e começa a percorrer a Índia, pregando a sua doutrina. É o tempo dos seus grandes milagres: ressuscita mortos, cura leprosos, restitui o ouvido aos surdos e a vista aos cegos.

     Proclama-se a segunda pessoa da Trindade, isto é, Vixnu, descido à Terra para salvar o homem do pecado original. Os povos acudiam em massa, para o ver e ouvir os seus ensinamentos, adorando-o como a um Deus e dizendo: "Este é realmente o Redentor prometido a nossos pais".

     A sua moral é pura, elevada e completamente altruísta.

     Rodeia-se de discípulos que devem continuar a sua obra. Ensina por meio de parábolas.

     Um dia, em que o tirano de Madura enviara muitos soldados contra ele e contra os seus discípulos, estes, tomados de pânico, quiseram fugir. Especialmente Arjuna, chefe dos discípulos, que parecia abalado na sua fé. Crixna, que estava orando perto, ouvindo os seus lamentos, foi ter com eles, repreendendo‑os pela sua pouca fé, aparecendo-lhes com todo o esplendor da divina majestade e com o rosto de tal modo iluminado, que nem os discípulos puderam resistir a tanta luz. A seguir a esta transfiguração, os discípulos chamaram‑lhe Jezéus, que quer dizer - nascido da pura essência divina.

     Doutra vez em que se encontrava com os discípulos, acercaram-se dele duas mulheres da pior condição, que derramaram perfumes sobre a cabeça e o adoraram.

     Quando Crixna compreendeu que tinha chegado a hora de abandonar a Terra e voltar ao seio de quem o tinha enviado, separou-se dos seus discípulos, proibindo-lhes que o seguissem, transportou-se às margens do Ganges, mergulhou no rio sagrado. E ajoelhando em seguida, e orando, esperou a morte.

     Nesta posição foi atingido por uma flecha e pregado a uma árvore. O que o matou foi condenado a vaguear eternamente sobre a Terra. Quando se espalhou a notícia da morte do Redentor, os seus discípulos correram a recolher os sagrados despojos; estes, porém, tinham já desaparecido, porque ele ressuscitara e subira ao céu.

     A nona encarnação de Vixnu é aquela em que aparece como Buda.

     Foi revelada em sonhos a sua mãe a grandeza do filho e o ascendente que teria sobre todos os seus semelhantes.

     Escolhe, para nela nascer, uma casta principesca, assim como Cristo escolheu a de David, e desce à Terra. Isto acontecia 628 anos antes de Cristo.

     Por ocasião do seu nascimento, sucedem coisas maravilhosas: uma luz deslumbrante iluminou dezasseis mil mundos, os cegos viram, falaram os mudos, andaram os paralíticos, os prisioneiros recuperaram a liberdade, uma doce brisa refrescou e animou a terra, mananciais fresquíssimos rebentaram do seu seio, as florestas abriram-se em corolas multiculores e dos céus choveram lírios de aromas inebriantes.

     De suas altíssimas moradas, saíram espíritos para vigiar o palácio onde devia nascer a criatura e desviar dele e de sua mãe todos os males.

     Apenas nascido, põe-se logo de pé, diante dos espíritos e dos homens maravilhados, aparece no céu uma estrela brilhante, acodem reis a acordá-lo, e, da terra, surge a famosa árvore Bo, a cuja sombra devia transformar-se em Buda. Aquela árvore tem as folhas continuamente em movimento, com o que se quer significar o estremecimento comemorativo da sagrada cena de que foram testemunho, à semelhança do que dizem os sírios, acerca das folhas da trémula, que incessantemente se agitam em memória da crucificação de Cristo, de cuja árvore se diz ter sido feita a cruz.

     Entre os que, cheios de gozo, vão visitar a maravilhosa criatura, fala-se principalmente de um velho, muito semelhante ao nosso Simeão, que, em troca da sua vida devota, recebeu o dom das profecias.

     E, embora o seu espírito se alegrasse pelo futuro reservado a esse menino, não podia deixar de chorar, pensando que, em virtude dos seus anos, já não podia assistir aos triunfos dele.

     A mãe de Buda chama-se Maya ou Maia, e concebera-o de um modo maravilhoso, fora de toda a relação conjugal.

     Quando morreu, foi, por suas virtudes, recebida no céu, onde habitam os Nat.

     Buda cresceu formoso e dotado de extraordinária inteligência, maravilhando os doutores pela sua sabedoria. Por fim, abandonou o tecto paterno para levar a cabo a sua missão.

     Enquanto jejuava no deserto, à sombra da árvore, durante um período de 49 dias (7x7), foi tentado várias vezes pelo demónio, de quem sempre saiu vitorioso.

     Pregou pela primeira vez em Benares, convertendo à fé grandes e pequenos. A sua moral, como veremos, é muito superior à do Cristo.

     O mais célebre dos seus discursos ficou sendo chamado, em virtude do local onde foi pronunciado, O Sermão da Montanha, precisamente como o do Cristo. Depois da morte, aparece aos discípulos, em forma luminosa, com a cabeça circundada de uma auréola.

     Buda teve também um discípulo traidor, Devadata. Não deixou nada escrito. Os seus discípulos, porém, reunidos em conselho geral, recolheram todas as suas doutrinas. Entre esses discípulos houve dois de natureza diametralmente oposta: um, sério e crente em absoluto e cheio de zelo; outro, dulcíssimo por natureza e predilecto de Buda. O mesmo que Pedro e João, discípulos de Cristo.

     Buda, como Cristo, revoltou-se contra o poder soberano dos sacerdotes.

     Como os cristãos, os budistas estão divididos em várias seitas. No budismo encontram-se todas as práticas religiosas do cristianismo. E tanto assim é que, quando os missionários católicos se encontraram pela primeira vez com os monges budistas, acreditaram numa tentação do diabo, o qual teria sugerido a esses monges as práticas católicas, sem pensarem que os imitadores não podiam ter sido os budistas, muito mais antigos que os cristãos.

     Até no seu Papa (Dalai Lama) e na sua infalibilidade, os budistas precederam os cristãos...

     Mas não antecipemos o plano da nossa obra e continuemos narrando a história dos Deuses Redentores, precursores de Cristo.

     Do pouco que já dissemos se depreende, com uma evidência que não pode ser maior, que a Índia teve uma encarnação do Deus Redentor, 3500 anos antes de Cristo, e outra seis séculos antes, e que no seu Jezéus Crixna e no seu Buda existem já quase todos os elementos do mito cristão, aos quais se assemelham extraordinariamente.

     Quanto mais avançarmos na breve resenha dos Deuses Redentores, que precederam Cristo, mais claramente veremos que na época em que foi concebido esse mito, nenhuma necessidade havia de inventar, para o constituir como hoje se encontra.

     Vejamos agora Mitra, o Deus Redentor da Pérsia, que, como observa Stephanoni, é um ponto de passagem entre o avatar ou encarnação indiana, e a encarnação cristã.

     A diferença característica entre os dois antropomorfismos não é, na realidade, muito sensível. Ocorre, porém, considerar que na encarnação indiana é a divindade única, absoluta, que toma forma humana, sem vínculo algum de inferioridade, a respeito do pai celestial, ao passo que a encarnação cristã se distingue pela procedência do filho do pai. E nos livros sagrados da Pérsia, o Deus Redentor transforma-se em patrono de Ormuz, quase igual a Deus. Mitra é precisamente o intermediário entre Deus e os homens, como diz Plutarco.

     Além disso, como nota Maury (2), em Mitra realiza-se a união da ideia física da passagem das trevas para a luz, com a ideia moral da união do homem com Deus.

     Mitra, chamado também Senhor, nasce numa gruta, de uma virgem, como Cristo no presépio, de outra virgem. O dia em que nasce Mitra é o mesmo em que, depois, nasce Cristo: a 25 de Dezembro, isto é, no solstício de inverno.

     Este dia era o da festa principal da religião dos magos, segundo Freret e Hyde.

     A mãe de Mitra continua virgem depois do parto.

     Na esfera dos magos e dos caldeus, o signo zodiacal da Virgem tem, junto desta, um menino e um homem, que parece o pai putativo da criatura.

     O nascimento de Mitra anuncia-se astrologicamente por uma estrela, que aparece do Oriente, e pelos magos que lhe levam perfumes, oiro e mirra.

     Mitra, que nasce a 25 de Dezembro, como Cristo, morre, como ele, no equinócio da primavera.

     E, como ele também, teve o seu sepulcro, ao qual iam os seus iniciados derramar lágrimas.

     Um escritor famoso, Firmico, conta que os sacerdotes levavam ao túmulo, de noite, a imagem de Mitra, num andor, cerimónia que eles acompanhavam com cânticos fúnebres. Acendia-se o círio sagrado (círio pascal), ungia‑se com perfumes a imagem do Deus e um dos sacerdotes declarava solenemente que Mitra tinha ressuscitado e que as suas penas tinham redimido a Humanidade.

     Outra parte da vida de Cristo tinha sido já aplicada a Zoroastro, na mitologia persa. O reverendo Dr. Mills, eminente teólogo e sábio cristão, não pôde deixar de se render à evidência, declarando e reconhecendo que a tentação de Cristo figurava já na mitologia persa, como tentação de Zoroastro, e acrescenta: "Nenhum súbdito persa, que passeasse pelas ruas de Jerusalém, poderia deixar de reconhecer este maravilhoso mito".

     Mais adiante veremos a surpreendente semelhança que há entre os mistérios persas e os cristãos, semelhança tão extraordinária, que S. Justino, não podendo negá-la, nem sabendo explicá-la com razões favoráveis à ortodoxia, acusava o diabo de ter revelado aos persas os mistérios do cristianismo, antes do nascimento de Cristo!

     Continuemos com a resenha  dos Deuses Redentores.

     Os egípcios tinham também o seu Deus Salvador em Hórus, convertido depois em Osíris-Ápis ou simplesmente Serápis (3).

     Hórus também nasceu de uma virgem, no solstício de inverno, e morreu no equinócio da primavera, para depois ressuscitar, como Cristo. Hórus estava exposto, no solstício de inverno, sob a imagem de uma criatura, à adoração dos fiéis, "porque então - diz Macróbio - o dia era mais curto e este Deus não passava de um débil menino: o menino dos mistérios, cuja imagem os egípcios tiravam dos seus santuários todos os anos e num dia determinado (25 de Dezembro)". Deste menino proclamava-se mãe a deusa de Saís, na famosa inscrição: O Deus que pari é o Sol. O Deus Hórus teve também a sua fuga, levado pela virgem Ísis, montada sobre um jumento.

     O mesmo mito foi aplicado, no Egipto, ao rei Amenófis III, que convém lembrar aqui, por ser um documento da maior importância para demonstrar que, dezoito séculos antes de Cristo, os mistérios que se encontram no Evangelho de Lucas (I e II) eram conhecidos.

     Voltemo-nos agora para um quadro pintado numa das paredes do templo de Luxor, no qual se vêem as cenas da Anunciação, da Concepção, do Nascimento e da Adoração. Este quadro foi reproduzido por G. Massey, no seu livro Natural Genesis. Na primeira cena, o Deus Yath, o Mercúrio lunar (anjo Gabriel) saúda a virgem e anuncia-lhe que dará à luz um filho. Na cena seguinte, o Deus Knept (o Espírito) produz a concepção. Na cena da adoração, o menino recebe as homenagens dos deuses e as oferendas de três personagens (os Magos).

     Também Baco nascia no solstício de inverno, depois de morto descia aos infernos e ressuscitava, e cada ano se celebravam os mistérios da sua paixão no equinócio da primavera. Chamavam-lhe Salvador, como Cristo, e, como ele, realizava milagres curando enfermos e prevendo o futuro.

     Na sua infância ameaçam matá-lo, como Herodes a Jesus, numa emboscada. No templo de Baco, operava-se o milagre da mudança da água em vinho, tal como o fez Jesus nas bodas de Canaã.

     Igualmente Adónis, cujo nome significa meu senhor, tinha as suas festas que duravam oito dias (adónias), quatro de luto pela sua morte e quatro de alegria pela sua apoteose. Uma verdadeira semana santa, sem lhe faltar mesmo os santos sepulcros, onde as mulheres executavam lamentações fúnebres, em torno do Deus morto. Apagavam-se todos os círios, menos um (o pascal) que se escondia no altar, para de novo ser mostrado no dia da ressurreição. Depois, o Deus morto ressuscitava e o luto dava lugar à alegria.

     Estas festas continuaram a celebrar-se no mundo Antigo, e especialmente entre os fenícios, durante mais de cinco séculos, antes que se transformassem nas da paixão de Cristo.

     Um dos rasgos característicos dos Deuses Redentores é a sua descida aos infernos, durante o tempo em que estão mortos. Também antes de Cristo, e em idênticas condições, Baco, Osíris, Crixna, Mitra e Adónis, aproveitam o tempo em que estão mortos para fazer nova visita aos defuntos.

     Poderemos continuar a resenha dos Deuses Redentores, de idênticos caracteres e notórios representantes do Sol: como Ati na Frígia, Belenho entre os celtas, Joel entre os germanos, Fo entre os chineses, etc... Até agora temos demonstrado suficientemente que, quando Cristo foi concebido, já tinham existido muitos Cristos... antes dele.

     O leitor, neste ponto, deve, por si próprio, tirar as ilações e deduzir consequências espontâneas e naturais.

 

E. Bossi

_______________

 

Notas:

(1) - No poema indiano Maabarata encontra-se outra anunciação, que parece ter servido de modelo à do Baptista, tão semelhante ela é.

(2) - Crenças e Lendas da Antiguidade.

(3) - Segundo a lenda egípcia, no dia em que nasceu Osíris "uma voz gritou, do alto do céu, que tinha nascido o Senhor de todo o mundo" (Plutarco - Ísis XIII). O evangelista Lucas apenas copiou  a lenda egípcia.

July 05

Poema de Gonçalves Correia

O MEU DEUS
 
Se deus está na flor que encanta e seduz,
No se filigranado, eterna maravilha, Na pétala graciosa que a vida nos conduz,
Na estrela misteriosa que nos encanta e brilha,
Eu, admirador do grande Artista,
Confesso não me arrepender
Se me disser deísta!
 
Porem, se é o tal Deus da madre igreja,
O cruel Deus papão das sacristias,
O Deus que sobre nós, fero, despeja
Trabuzanas e raios todos os dias;
Se é esse o Deus que manda as trovoadas,
Que ajuda o padre lorpa e o sacrista
E deixa casas pobres arrasadas,
Então, caros irmãos, não sou deísta!
 
Gonçalves Correia
 
June 29

100 DIAS DE GREVE

SOLIDARIEDADE COM OS GREVISTAS DOS SUPERMERCADOS MERCADONA.

 

100 DIAS DE GREVE INDEFINIDA CONTRA AMEAÇAS, INTIMIDAÇÕES,  DESPEDIMENTOS E REPRESSÃO SINDICAL.

 

100 DIAS DE LUTA POR DIGNIDADE NO POSTO DE TRABALHO.

 

A greve no centro logístico da Mercadona, em Sant Sadurní d'Anoiateve (Barcelona), foi declarada como resposta ao despedimento de três trabalhadores da secção sindical da CNT-AIT (Confederação Nacional do Trabalho – Secção espanhola da AIT) na empresa, dado que estes sempre denunciaram as condições de trabalho e o ambiente repressivo em que se trabalha na Mercadona, cuja administração imaginou que, desta forma, dificultaria a acção sindical da CNT-AIT na empresa. De facto, desde que a administração da Mercadona foi informada pela CNT-AIT da criação da sua secção sindical, aumentou a perseguição e intimidação, por todos os meios, dos trabalhadores da empresa, em particular dos militantes da CNT-AIT. A greve foi convocada por 10 dias, tendo-se entretanto transformado em greve indefinida. As exigências dos trabalhadores da Mercadona são:

- Readmissão dos 3 trabalhadores despedidos.
- Pagamento da meia hora de descanso, que deixou de contar para efeitos de contagem de tempo efectivo.
- Cumprimento das normas de segurança e higiene no trabalho.
- Fim das perseguições e intimidações dos trabalhadores.
- Reconhecimento da CNT-AIT, assim como dos seus delegados.
- Introdução de uma cláusula de garantia de trabalho (em caso de despedimento julgado sem justa causa, ser o trabalhador a decidir se regressa ou não ao seu posto de trabalho).

A greve indefinida, que se iniciou em 23 de Março, prossegue em condições muito duras, já que a Mercadona, rede de supermercados com lojas em toda a Espanha, já trouxe fura-greves para substituir trabalhadores grevistas.

A CNT-AIT, que necessita, mensalmente, de 18.000 Euros para manter a greve, isto é, para garantir que os trabalhadores e suas famílias não necessitarão de passar fome para manter esta greve, que prevê que possa continuar por bastante mais tempo, apela à solidariedade internacionalista com os trabalhadores da Mercadona, tendo criado, desde o início da greve, uma Caixa de Resistência, para onde se pode contribuir, para o seguinte nº de conta bancária:

2100 (La Caixa) - 1183 - 35 - 0100505773
EUROPA: IBAN: ES08 2100 1183 3501 0050 5773
RESTO DO MUNDO: BIC (Swift): CAIXESBBXXX 2100 1183 3501 0050 5773

Mensagens de solidariedade poderão ser enviadas para a Federação Local da CNT-AIT de Barcelona, para o seguinte endereço: sov@barcelona.cnt.es
Da mesma forma, é importante enviar cartas de protesto contra a actuação da Mercadona e de apoio aos seus trabalhadores para:

Mercadona, S.A.
CIF:A-46-103834
C/ Valencia, nº 5
Tavernes Blanques
VALENCIA - C.P.46016
ESPANHA

 
APOIA A GREVE SE FORES ATÉ ESPANHA NÃO COMPRES NOS SUPERMERCADOS MERCADONA.
 
 
June 12

As posições da FAI de Portugal sobre o anarco-sindicalismo

AS POSIÇÕES DA FAI DE PORTUGAL SOBRE O ANARCO-SINDICALISMO

 

Sobre a questão do anarco-sindicalismo, a FAI de P. Tem as seguintes posições:

 

a) O anarco-sindicalismo é unicamente um dos meios da realização da Revolução Social Anarquista. As organizações anarco-sindicalistas tornam possível uma ampla difusão, nos meios laborais, do ideário anarquista, tornam largas camadas de trabalhadores receptivas às concepções anarquistas, desempenham um papel indispensável na preparação, organização e autodefesa da greve geral activa ou revolucionária, e, através das suas federações locais de sindicatos revolucionários, desempenham um papel importante na edificação das comunas locais anarquistas.

 

Se bem que desempenhem uma função importante e indispensável, no domínio da execução das tarefas, destrutivas e construtivas, da Revolução Social Anarquista, as organizações anarco-sindicalistas não são prefigurações ou formas embrionárias da futura sociedade. Uma organização anarco-sindicalista deve transformar-se, no decurso da Revolução Social, numa união de sindicatos de trabalhadores anarquistas e, consequentemente, autodissolver-se no seio das comunas locais anarquistas.

 

b) Uma organização anarco-sindicalista é uma Confederação, constituída por federações de sindicatos LOCAIS de ramo de actividade (transportes, saúde, construção, etc). Ela é incompatível com os sindicatos nacionais de indústria, pois estes põem em causa o carácter anti-burocrático e federalista do sindicalismo inspirado nas ideias anarquistas. Estes sindicatos são inapropriados a uma acção revolucionária, cujo objectivo final é o comunismo das comunas anarquistas, locais e federadas. Eles correspondem a uma luta que visa a "autogestão" da economia capitalista, ou a instauração de uma espécie de capitalismo sindical.

 

Os sindicatos de categorias profissionais (sindicato dos médicos, dos pilotos da aviação, dos maquinistas, etc) são também incompatíveis com o anarco-sindicalismo. Eles põem claramente em causa o carácter anti-reformista e anti­-corporativo do sindicalismo baseado nas ideias anarquistas. Estes sindicatos têm sido um factor de desunião dos trabalhadores, um sério obstáculo à existência, no seio da classe trabalhadora, da solidariedade prática, que os anarquistas sempre defenderam.

 

Quer os sindicatos nacionais de indústria, quer os sindicatos profissionais, são, obviamente, incompatíveis com uma luta revolucionária, que, entre outras coisas, visa a descentralização das indústrias, pôr fim à divisão entre zonas industrializadas e zonas rurais, acabar com a divisão social entre trabalho manual e intelectual, em suma, transformar a economia capitalista numa economia integrada e ecológica, ou seja, numa economia determinada pelas necessidades dos vários indivíduos humanos, e não pela valorização do capital.

 

c) A organização anarco-sindicalista não é equiparável aos apêndices sindicais dos partidos políticos. A organização anarco-sindicalista baseia-se no federalismo libertário, o que implica necessariamente a autonomia dos trabalhadores e dos sindicatos que a constituem. Por esta razão e devido também ao seu carácter anti-autoritário, à sua própria natureza, a organização especificamente anarquista não possui quaisquer órgãos de intervenção no domínio da acção sindical, dentro ou fora das associações anarco-sindicalistas, nem coordena as práticas sindicais dos seus militantes. A organização especificamente anarquista não procura, sob qualquer forma que seja, instrumentalizar a organização anarco-sindicalista, o que não significa que uma federação anarquista, ou um grupo anarquista, não possa, enquanto tal, assumir uma atitude crítica, face à prática e ao funcionamento duma associação anarco-sindicalista, o que não significa que uma associação anarquista não deva lutar, por meio da propaganda, contra todas as atitudes e posições que, na sua opinião, põem em causa os aspectos distintivos do combate libertário, no domínio da luta sindical ou noutro domínio qualquer. A organização especificamente anarquista tem, para com as associações anarco-sindicalistas, uma atitude solidária e de cooperação, na base do livre acordo.

 

A conjugação de esforços, realizada pelos militantes anarquistas, no domínio da acção sindical, assenta nos pactos que elaboram, nas assembleias da organização especificamente anarquista, relativos à orientação geral do combate libertário, considerado na sua globalidade, e, sobretudo, no facto de cada um dos referidos militantes agir, por si próprio, no seio do seu sindicato e, eventualmente, nos órgãos federativos da sua organização sindical, coerentemente com os princípios anarquistas, nos quais se baseia a organização anarco-sindicalista.

 

O facto de os anarquistas não pretenderem, de acordo com os seus princípios, instrumentalizar as associações anarco-sindicalistas, não significa, de forma nenhuma, que não sejam solidários entre si, perante eventuais manobras concertadas de reformistas, no próprio seio da organização anarco-sindicalista. Se não o fossem, tornariam possível, ou facilitariam, a instrumentalização das associações anarco­-sindicalistas, para fins que não são os seus.

 

d) Algumas das posições que Malatesta defendeu, na discussão que teve com Monatte, sobre a questão do sindicalismo, estão desactualizadas. Num período em que vigora um totalitarismo democrático-mercantil, ou democrático­-capitalista, e em que, sobretudo, por esta razão, se assistiu à transformação dos sindicatos reformistas em autênticos órgãos da organização estatal e capitalista e numa expressão da hierarquia que se estabeleceu, no próprio seio da classe trabalhadora, o sindicalismo de carácter anarquista é o único que pode interessar aos trabalhadores mais explorados e discriminados, e a todos aqueles que almejam a destruição completa da sociedade autoritário-capitalista. Organizações sindicais, como a CGT espanhola e a SAC sueca, que, para abarcarem mais trabalhadores, decidem participar em eleições democráticas, por exemplo, para comités de empresa, de representação dos trabalhadores, ou melhor, de mediatização das lutas sindicais dos trabalhadores, pondo, assim, em causa a acção directa, o método de luta especificamente libertário, tendem a tornar-se, nas condições actuais, idênticas aos apêndices sindicais dos partidos políticos. Organizações sindicais destas não interessam, de forma nenhuma, aos anarquistas. Os anarquistas não podem manter-se indiferentes, perante o aparecimento de organizações sindicais, auto-denominadas libertárias, do género da CGT espanhola. Para eles, não são irrelevantes as diferenças que existem, por exemplo, entre a CNT -AIT e a CGT espanhola.
April 28

!º de Maio

1º de Maio: Dia de Luta!!!

 

A comemoração do 1º de Maio como Dia do Trabalhador teve a sua origem na jornada de luta dos trabalhadores de Chicago em 1886 pelas oito horas de trabalho diárias e por melhores condições de trabalho. A partir de então, o 1º de Maio foi erigido como um dia de luta dos trabalhadores de todo o mundo pela sua emancipação. No entanto, o Estado, o Capital e os sindicatos reformistas vendem-nos este dia como se de uma festa se tratasse, comemorado com desfiles e romarias, como se não houvesse já motivos para os trabalhadores se erguerem em luta contra a exploração a que estão diariamente sujeitos.

A Associação Internacional dos Trabalhadores (A.I.T.), a internacional das organizações anarco-sindicalistas, prolonga a tradição de luta sindicalista revolucionária do movimento operário, propondo a auto-organização dos trabalhadores, independente face aos sindicatos reformistas, atrelados aos interesses partidários, domesticados pelo Estado e pelo Capital e tantas vezes traidores da mesma classe trabalhadora que dizem defender. Os sindicatos e grupos de propaganda anarco-sindicalista da A.I.T. organizam-se sem chefes nem burocratas, numa base orgânica em que todos estão em pé de igualdade, em que não existem funcionários sindicais e em que as funções são rotativas e revogáveis a qualquer momento. Defendemos como forma primordial de luta dos trabalhadores a acção directa, ou seja, a luta dos próprios trabalhadores, pelos seus próprios meios, pelos seus próprios objectivos, fora de qualquer acção representativa partidária, renunciando à possibilidade de conciliação entre o Trabalho e o Capital.

Nos dias de hoje, todos sentimos na pele o agravamento das condições de exploração dos trabalhadores. Cada vez mais humilhados, os verdadeiros produtores de riqueza são responsabilizados pelos governos e pela classe patronal pela “crise” em que o país vive. Estes, com o pretexto do “crescimento económico” e da “unidade nacional”, sujeitam cada vez mais os trabalhadores a condições agravadas de exploração e humilhação laboral. Todos conhecemos o ataque sobre os trabalhadores que representou o novo Código do Trabalho, assim como as condições de precariedade a que estão sujeitos cada vez mais jovens trabalhadores, obrigados a trabalhos extenuantes, inúteis e repetitivos mediante contratos que, quando existem, chegam a durar uma simples semana. Da mesma forma, conhecemos o drama de trabalhadores que consagraram a sua vida às fábricas em que trabalharam, tantas vezes recebendo salários miseráveis, e que se vêm subitamente abandonados pelos patrões, mercê das falências fraudulentas e das deslocalizações, com poucas perspectivas de voltarem a encontrar um meio de sustento. Conhecemos também as condições em que trabalham em Portugal os imigrantes de outros países que, tal como fizeram e continuam a fazer tantos portugueses, se viram forçados a procurar melhores condições de vida num país estrangeiro, obrigados muitas vezes à clandestinidade. Ao mesmo tempo que tudo isto se verifica, assistimos a um incremento cada vez maior das desigualdades sociais, à ostentação cada vez mais nojenta do luxo de uns poucos e ao crescimento exponencial dos lucros dos grandes grupos económicos e do capital parasitário.

Hoje, como nunca, numa época em que o Capital não conhece quaisquer fronteiras, utilizando as dos Estados nacionais apenas como forma de dividir e pôr em competição os trabalhadores de diversas regiões, faz sentido a ideia de uma associação internacional que una mulheres e homens trabalhadores de todo o mundo numa mesma luta, auto-organizando-se na batalha pela defesa e melhoria das suas condições de vida e pelo derrube do capitalismo e do Estado, para que, enfim, desapareçam da face da Terra os privilégios que uns tantos mantêm à custa da miséria da maioria da população mundial e para que acabe de uma vez por todas a exploração do homem pelo homem.

Abaixo o capitalismo! Viva o sindicalismo revolucionário! Viva o comunismo libertário!

 

27/Abril/2006                 Associação Internacional dos Trabalhadores – Secção Portuguesa

 

                                       ( Apartado 50029  /  1701-001 Lisboa       e-mail:aitport@yahoo.com )
April 23

Manifesto contra as comemorações dos trinta e tal anos do 25 de Abril

 

 

Trinta e tal anos depois ainda cá estamos de pé, tentando - a despeito da irrisória fragilidade dos nossos meios - estor­var o mais possível o triunfalismo e a “pompa e circunstância” das comemorações deste aniversário do 25 de Abril; até porque, de 25 de Abril de 1974 a 25 de Abril de 2006, é tempo mais que suficiente para a mitificação, a mentira, o esquecimento e o adormecimento da consciência crítica.

 

Nos palcos improvisados (ou premeditados) do espectáculo comemoracionista, isto é, na Assembleia da República, no Palácio da Presidência, nas Assembleias Distritais, nas Câmaras Municipais e nos desfiles militares, estão presentes os nossos adversários e inimigos de sempre: não mais os obsoletos “mosqueteiros do rei”, mas a corte habitual de generais e almirantes republicanos, de prebendados e proxenetas da democracia representativa, de grandes capitalistas e seus homens de palha, de burocratas, tecnocratas, gestores, bufos e polícias. Desta feita, segundo consta, com o patrocínio da Coca-Cola e, muito possivelmente também, da Mercedes-Benz, da Toyota, da General Motors, do Papa, da seita Moon, da Maçonaria, da Internacional Social-Democrata, do Fundo Social Europeu, do Fundo Monetário Internacional, da CIA e do FBI ...

 

Apesar das inevitáveis trocas de galhardetes e outras picardias entre o Presidente da República e o Primeiro Ministro, ou entre tenores socialistas e sociais-democratas, acerca da “democracia de suces­so”, todos dizem substancialmente o mesmo: que as Forças Armadas, facto inédito na História, “liber­taram” o bom povo português, depois de o terem bem, aferrolhado durante cerca de 50 anos; que já temos “liberdade de expressão", quer dizer, liberdade das cordas vocais, embora a imensa maioria não tenha qualquer meio para exprimi-la; que a democracia ainda não é perfeita, mas que para lá se cami­nha a passos largos, a despeito da permanente insatisfação humana e da perene imperfeição do “Homem”; que o “socialismo de distribuição”, segundo a fórmula do impagável filósofo Sottomayor Cardia, ainda há-de fazer das suas, sobretudo quando Ele chegar à Presidência da República ou da sua Junta de Freguesia; que os aspectos liberais do socialismo democrático, bem como os aspectos sociais do liberalismo avançado, têm que convergir numa grande corrente unitária de pensamento e acção, conquanto salvaguardando sempre as possibilidades de alternância no poder e o saudável “pluralis­mo” das outras correntes de “amigos do tacho”; etc., etc. E todos patenteiam a alegre despreocupação e as fauces rosadas de quem está bem instalado na vida e tem sobejas razões para brindar.

 

Nem troca-tintas nem vira-casacas, e tentando superar a atitude meramente estética da “náusea pura”, vamos lá descortinar as razões de tanto comemoracionismo beato, de tanta e tão elaborada men­tira ideológica; precisamente porque, a vinte anos de distância, é perfeitamente “Inatural” que os princi­pais polichinelos e os títeres subalternos estejam completamente desmemoriados, ou então tenham a memória demasiado “selectiva” ...

 

 

A "revolução" de 25 de Abril: algumas recordações para uso dos "distraídos" e dos "amnésicos"

 

 

Quando, após a tentativa frustrada das Caldas da Rainha (16 de Março de 1974), eclodiu o golpe de Estado militar de 25 de Abril do mesmo ano, entrou na cena política portuguesa um Exército profundamente desmoralizado pelos “acidentes” da guerra colonial, pelo número crescente de estropia­dos e mais ainda pela enorme hemorragia de efectivos que o crescimento galopante do número de desertores e refractários constituía. Com efeito, umas Forças Armadas que dispunham de um contin­gente regular de cerca de 200.000 homens, viram, completamente impotentes, debandar para o estrangeiro, ao longo dos anos, cerca de 150.000 combatentes potenciais. Só no que diz respeito à incor­poração de 1973/74, consta que cerca de 16.000 dos 30.000 mancebos mobilizáveis preferiram pôr-se ao fresco a apresenta-se à inspecção médico-militar. Comparativa e proporcionalmente, o número de desertores norte-americanos da guerra do Vietname, de russos da guerra do Afeganistão ou de cubanos da ulterior guerra de Angola era uma brincadeira de crianças.

 

Ante tal enormidade, tanta recusa em travar um combate que não era o seu, que podia a tropa fazer? Ele bem havia, é certo, dentro da fauna militar, os pleonásticos e patéticos fascistas e corpora­tivistas incondicionais, os yes men de Salazar e de Caetano, que haviam concluído chorudos negócios à sombra do Estado Novo e eram os aliados e defensores naturais das grandes famílias; assim como os mercenários profissionais que amealhavam uns cobrezinhos com as sucessivas “comissões de serviço” e outras alcavalas, enquanto mandavam para a linha de fogo ou para o mato os magalas e galuchos mobilizados à força e os oficiais milicianos. No entanto, pouco a pouco, já cansada de se agarrar à “ração de combate” e à garrucha, tinha despontado uma casta nova, mais hipócrita, mais “civilizada”. Pensava esta, de maneira mais prudente, aproveitando a boleia spinolista de “Portugal e o futuro” e a desorientação do Estado-Maior: “Já ganhámos os nossos galões nas campanhas de Mueda, Nambuangongo e tantas outras, cortando cabeças, aterrorizando o indígena e amontoando-o em aldea­mentos infames; porque não continuar a carreira, com maior proveito e menor risco, num Portugal mais democratóide, ”pluralista” e, europeu, liberto do anacronismo colonial e imperial old style?”

 

Uf, já não era sem tempo! Claro que foi esta derradeira posição, mais pragmática e “moderna”, que levou a melhor, tentando demonstrar à posteridade que a tropa fandanga não pensa apenas com as botas e ficando transfigurada nos compêndios escolares por aquilo a que se chamou “espírito de Abril”. Esse “espírito”, evidentemente, digam. lá os poetas líricos o que disserem, ainda hoje não perdoa aos desertores e refractários o facto de terem obrigado os militares "progressistas" a darem o golpe das flo­res; até porque, para o efeito, coitados, tiveram que desobedecer aos seus superiores hierárquicos e, para um oficial que respeita a farda que enverga, desobedecer é um acto subversivo e uma verdadeira “desonra”...

 

Concomitantemente, a velha classe capitalista “nacional” - muito labrega, muito caseira -, secundada pela classe média mais arguta, pensava confusamente que o maná do mercado protegido, a ficção do escudo forte, a protecção do big brother norte-americano, a miséria reinante, os baixíssimos salários, a aparente docilidade do operariado e do campesinato portugueses e a expulsão da massa excedentária para a emigração legal ou clandestina não seriam epifenómenos eternos. O incipiente capi­talismo “nacional” necessitava de alcançar os seus pares internacionais, de se internacionalizar, de alte­rar a sua composição, de vencer as baixas cadências, de se reestruturar, de sacrificar - se necessário - os galhos doentes e obsoletos, como, por exemplo, os parasitários e semi-falidos latifundiários alentejanos, para revitalizar a seiva da árvore das patacas e do lucro. Numa palavra, necessitava da sua perestroika.

 

Essa “perestroika” tinha, pois, como objectivo despoletar as tensões de um sistema caduco que se podia desmoronar perigosamente, assim como desembocar numa mera sucessão de regimes equiva­lentes. Seria, ao mesmo tempo: uma espécie de jogada de antecipação, em relação às greves espon­tâneas, incontroladas e sem pré-aviso que eclodiam pelo país fora, no período que precede a “revolução dos cravos”; e uma espécie de vacina contra certos acessos e excessos que pudessem empolgar o corpo social. Bem ponderadas as coisas, ante a impotência da antiga classe política para se auto-reformar e apesar dos perigos de instauração de, uma ditadura militar “de esquerda” (ou de direita), mais valia que fosse a tropa a limpar o universo da acumulação do capital das escórias do atraso e do subdesen­volvimento, através de um golpe de Estado palaciano, do que deixar os próprios espoliados, sem qual­quer espécie de mediadores, tentarem a sua sorte... Nestas coisas, aliás, sempre foi assim: hoje, como há trinta e tal anos, os elegantes e os despreocupados acham - cheios de “bom senso”, de “realismo” e, se necessário, apoiados em argumentos de grande rigor “científico” - que qualquer solução autoritária é preferível à eclosão de uma genuína revolução libertária e a que os oprimidos e explorados tomem a condução dos seus destinos nas suas próprias mãos. Se assim não for, que o primeiro ilustre democrata que assim não pensa nos lance a primeira pedra!

 

Nestes processos um pouco mais abruptos de simples passagem teleguiada de um regime de tipo fascista para um regime democrático - com total manutenção do sistema dominado pelas classes de expropriadores e seus testas de ferro - há, porém, sempre um perigo a exorcizar: o do chamado período de transição para a democracia dita plena, quando por definição se sabe que a democracia só pode ser formal ou meramente nominal. Querer mais do que isto, já não é querer a democracia, mas a acracia e que o “poder caia na rua”, ou no cano de esgoto, sucedendo-lhe a descarga do autoclismo. E aí é que está o grande perigo: a tramóia da democratização não pode ser desvendada e os prestidigita­dores de serviço - como o Movimento das Forças Armadas, a Junta da Salvação Nacional, o Conselho da Revolução, o “companheiro” Vasco Gonçalves, o grupo dos nove, o major Otelo, o major Melo Antunes, os almirantes Pinheiro de Azevedo e Rosa Coutinho, Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Álvaro Cunhal, os três mosqueteiros e o capuchinho vermelho - não podem revelar que cami­nham para o populacho com “uma mão cheia de nada e a outra de coisa nenhuma”. Caliban ou Prometeu agrilhoado é como um leão adormecido e o seu despertar pode ser terrível. Pode querer a liberdade plena, como os anarquistas a entendem e não a democracia; pode querer a igualdade efectiva e não a socialização da miséria nem a ditadura dita do proletariado.

Para evitarem contrariedades e dissabores, a burguesia e a sua tropa (de choque) tinham, não obstante, os seus planos. Seguindo fielmente o exemplo do general De Gaulle e da burguesia francesa, a seguir à 2ª Guerra Mundial e à chamada “libertação”, foram buscar o PCP ao armário dos acessórios e deram. logo um ministério (sem pasta) ao velho estalinista Álvaro Cunhal. Para Avelino Gonçalves, outro pêcê menos ilustre, ficaria reservado o Ministério do Trabalho (assalariado), onde desempenharia as funções pouco lustrosas de bombeiro da Revolução Social e de jardineiro do golpe dos cravos. A escolha até parecia acertada. Mais preocupado em entregar - com a ajuda dos oficiais “progressistas” e de toda a rapaziada que se queria desenvencilhar a qualquer preço das colónias - a Guiné, Angola e Moçambique ao PAIGC, ao MPLA e à FRELIMO, isto é, à esfera de influência soviética, do que em picar a mula para a frente em Portugal, o PCP parecia constituir um excelente travão ao que quer que fosse que tivesse pernas para andar. Ainda por cima, sem recorrer a nenhuma agência publicitária que cuidasse da sua imagem de marca, saía da “longa noite do fascismo” - que tantas e tão injustificadas reputações criou  - com a aura e a auréola da “resistência” e do “antifascismo”; apesar de sempre se ter abstido de falar de "socialismo" e ainda menos de “comunismo”; já que, ao longo dos anos e durante a aspérrima clandestinidade, apenas alanzoara minimalista e inconsequentemente sobre a revolução democrática e nacional, quer dizer, sobre algo que se assemelhava a um "nacional-democratismo” qualquer. E a conquista das cúpulas do velho “nacional-sindicalismo” perpetrada pelos estalinistas durante a “primavera marcelista”, propiciadora ao ponto de depois falarem de “sindicalismo vertical” e de tentarem obter por via legislativa a “unicidade sindical”, também ajudava à festa e consolidava a sólida reputação dos impostores. Tinha, pois, o PCP, pelo menos aparentemente, a “autoridade moral” e a implantação necessárias para promover manifestações contra as greves e, também logo de início, con­tra as ocupaç6es de terras e de fábricas; até porque, nos países onde os “partidos irmãos” mandavam, greves e ocupaç6es nunca estavam na ordem do dia e eram selvaticamente reprimidas, havendo apenas espaço e tempo para as “batalhas de produção” à borla e outras formas de entretenimento popular. Falando com os seus botões,. devia pensar o Secretariado ou o Comité Central: “Que horror, camaradas! Greves não teleguiadas e ocupações não consentidas, isso leva-nos aos tempos horrrrorrosos, irrrresponsáveis da acção directa e do anarco-sindicalismo...”

O pior é que a ilusória implantação de PCP no seio do populacho, se bem que necessária para a boa prossecução dos negócios, não era suficiente. Foi quando a castanha estalou na boca dos respon­sáveis institucionais. Sem pedirem licença a ninguém - nem aos estalinistas nem à 5ª Divisão que, a pre­texto de “dinamização cultural”, andava a militarizar a esmo e a mostrar aos provincianos quem eram os novos donos do país -, assalariados agrícolas e desempregados sazonais do Alentejo e do Ribatejo ocuparam alguns latifúndios, enquanto operários ameaçados pelo espectro do desemprego e dos salários em atraso ocuparam algumas fábricas descapitalizadas e estranguladas pela falta de créditos e de encomendas. Mais ou menos por essa altura, generalizou-se o fenómeno das comissões de traba­lhadores e de moradores. A tudo isso como que “presidia” um espírito libertário algo confuso e difuso, de matriz espontânea, quando não conscientemente “espontaneista”, infelizmente insuficiente para garantir a boa coordenação dos vários aspectos, o desenvolvimento do movimento e o seu não confisco em proveito próprio pelos "vanguardistas” habituais. Por isso mesmo, na ausência de um movimento anarquista e anarco-sindicalista forte e organizado à nossa maneira responsável e afinitária, só podia acontecer o pior: a esquerda e a extrema-esquerda autoritárias, com o PCP à cabeça, burocratizaram, recuperaram, desacreditaram e desfiguraram tudo, ou não pensassem elas lá bem no fundo - ao fim e ao cabo como a direita mais tradicionalista e paternalista - que os trabalhadores entregues a si próprios só fazem asneira, além de, como o camarão, só terem merda na cabeça...

Resumindo e concatenando: demasiado ocupadas com o flirt com os oficiais “progressistas” ­quais boas meretrizes da vida política - e repetindo de cor e salteado, de maneira acéfala e demagógica, as fórmulas rituais da sua subserviência em relação à bota militar (O povo está com o MFA” ,”soldados sempre, sempre ao lado do povo”, etc.), a esquerda e a extrema-esquerda autoritárias nem viram despontar o movimento das ocupações. Depois, como não podiam mais parar o comboio em andamen­to, apanharam-no precipitada e oportunisticamente, e desviaram-no, já que sempre preferiram a buro­cratização e a estatização da propriedade a qualquer forma de gestão directa da riqueza social pelos próprios produtores. Para elas, o lema da Associação Internacional de Trabalhadores (também conheci­da por 1ª Internacional), segundo o qual a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios tra­balhadores”, sempre foi letra morta. Com tal proceder e tal mentalidade, forneceram grandes “argu­mentos” à burguesia mais retrógrada sobre a “utopia” operária e camponesa, e desbravaram o terreno à chamada lei Barreto sobre as “reservas” e aquilo a que podemos chamar ironicamente as “quotas disponíveis”. A seguir e a seu tempo, obedecendo a um doseamento, “sádico”, viriam a restante e acabrunhadora legislação avulsa e as sucessivas revisões constitucionais. Estavam salvos a Pátria e o Estado de Direito!

 

Uma palavra ainda sobre essa extrema-esquerda autoritária: quer ela fosse maoista ou trots­kista, castro-guevarista ou mais genericamente marxista-leninista, guerrilheirista ou simplesmente ter­ceiro-mundista, ideologicamente sempre esteve muito próxima do PCP. Passava a vida a definir-se em relação a ele, a criticá-lo com paixão e veemência, a plagiá-lo o mais subtilmente possível, a fazer-lhe o frete e a “radicalizar-lhe” os programas. É o que se pode chamar o “radicalismo no disparate”. Bastava o Comité Central dos estalecas profissionais dizer: “nós queremos A”; para logo os estalecas amadores da UDP ou do MRPP também ganirem esganiçada e infantilmente: e nós queremos A+B, arra-luça, somos mais radicais!”. Depois, seguiam-se as bizantinas, teológicas e intermináveis discussões sobre ortodoxia e revisionismo. No fundo, uma ambivalente e freudiana relação de amor-ódio unia e une toda essa gente. Quando a China e Cuba caírem como caíram a União Soviética e os seus satélites, as semelhanças entre todos ainda virão mais à tona e poderemos então gritar: “bloco afinal só havia um, o do Estado e do Capital e mais nenhum!”

 

Mas não é tudo. Tal como o PCP, a extrema-esquerda autoritária teve sempre e tem aquilo que podemos apodar de concepção golpista da revolução, não pretendendo mais do que fazê-la por cima, isto é, através das maquinações e manipulação das cúpulas civis ou militares. Na conformidade, como a sua coragem física sempre foi escassa e o seu projecto revolucionário nulo, pensava e queria fazer a economia da Revolução SociaI, pondo a tropa a trabalhar por conta e crendo que ela faria pela extrema­-esquerda aquilo que ela própria por si não fazia. A ironia involuntária atingiu as raias e os cumes do ridículo, quando, manejando a escova e a graxa, qualquer partidelho ou grupóide se punha a contar espingardas. Uns pensavam dominar a Marinha e os fuzileiros, outros namoravam descaradamente com o major Saraiva de Carvalho e com o COPCON, outros apalpavam os bicípites dos pára-quedistas, outros ainda, sem pudor nenhum, achavam que os comandos eram os mais viris...

 

Foi neste ambiente psicologicamente enfermiço que despontaram meigos tropismos como os SUV (Soldados Unidos Vencerão) e juramentos de bandeira “subversivos” como o do RALIS. Na práti­ca, em vez de apressarem a desagregação das Forças Armadas, vieram aumentar-lhes a coesão e conso­lidar-lhes o espírito de corpo, quando a terapia tradicional fraquejava. Nem outra coisa seria de esperar de uma extrema-esquerda autoritária que nunca compreendeu que todos os exércitos (vermelhos, azuis, amarelos ou pardos) se equivalem e que os militares “de esquerda”, como os padres liberais, se contam. entre os piores inimigos da humanidade. Tanto uns como os outros tentam fazer-nos esquecer que o melhor exército é aquele que não existe, do mesmo modo que a “teologia da libertação” - de D. Hélder Câmara ou do padre Boff - não nos deve fazer perder de vista a libertação da teologia. Mas, repetimo­-lo, isso é coisa que não entra sequer na cabecinha obtusa de partidos políticos que, como a Mocidade Portuguesa, têm os seus lusitos, infantes, vanguardistas, chefes de quina, comandantes de castelo e comandantes de bandeira... Quando se unem, no meio de toda esta pessegada, em coligações politi­cantes de fachada e de estados-maiores como a FUR (Frente de Unidade Revolucionária) - que chegou a englobar o PSR, a UDP, o MES, o PRP e o inefável PCP, o qual logo a seguir “borregaria” e roeria a corda, para conseguir a plena legitimidade e a respeitabilidade burguesa -, fazem-no sempre para nos taparem a linha do horizonte e nunca para nos deixaram ver a saída do túnel. Estão todos a anos-luz de um Albert Libertad, especialmente quando este declarava; “O antimilitarismo é de origem essencial­mente anarquista. O antimilitarismo só pode ser anarquista. Só aqueles que lutam contra a organização social na sua totalidade, têm a dupla vontade de não defendê-la e de destruir aqueles que a sustentam”.

Quanto à burguesia lusitana - que foi fascista no “bom momento”, “de esquerda” logo a seguir ao 25 de Abril e hoje, com a descoberta do caminho marítimo para a CEE e para a União Europeia, é modernaça, europeia, social-democrata ou neo e ultraliberal -, evidenciou logo a sua falta de classe, mal a chamada “roda da História” acelerou um tiquinho. Quando a caliça do edifício social começou a cair, pensou logo que vinha aí um abalo sísmico e entrou em pânico. Parte dos seus efectivos converteu-se ao “socialismo” e até ao marxismo-leninismo, participando activamente com o furor e o fervor dos neó­fitos nos “saneamentos selvagens”, quer dizer, na patética corrida aos tachos: enquanto outra parte, possessa ou simplesmente sucumbindo a uma crise de histeria, vendia residências magníficas por uma pechincha, evadia capitais e cavava com todo o garbo e galhardia para a Espanha ou para o Brasil, por essas paragens vizinhas ou remotas criando o ELP, o MDLP e outros grupos de rufiões e caceteiros, membros de qualquer partido nacional-porreirista...

 

Mantendo uma prudente equidistância entre as duas. alas da burguesia desavinda e interpre­tando correctamente, durante um lapso de tempo mais ou menos longo, os interesses pluralistas da classe considerada de lés a lés, surgiu então o PS envolto em esplendor democrático. O seu papel não foi nada despiciendo, embora muito menos audaz do que aquilo que se pensa, se nos lembrarmos, por exemplo, da maneira como desconvocou a contra-manifestação de Janeiro de 1975 contra a já referida “unicidade sindical” de recorte estalino-fascista. Não obstante, à volta de Mário Soares, Salgado lenha ou Almeida Santos - ilustres advogados de uma causa não perdida -, os quais eram acolitados por toda uma corte de ex-pêcês, ex-esquerdistas, “católicos progressistas” e membros da Maçonaria, ainda teve o ensejo de fazer das suas e de contribuir poderosamente para que tudo caísse nas águas de bacalhau da democracia representativa e no marasmo pós-eleitoral; sobretudo quando nem o pequeno e aguerrido Sá Carneiro, nem o conspícuo administrativista Freitas do Amaral, assistente de Marcelo Caetano e douto animador da Câmara Corporativa, tinham a mais pequena “autoridade moral”, como soe dizer­-se, para mexer uma palha.

 

Claro que tanto mérito ecuménico e convivial foi recompensado, tendo o PS o ensejo de formar governos minoritários e, depois, de se coligar com o CDS, sem esquecermos a sua união com o PSD, para a formação do Bloco Central. Em todos esses governos “socialistas”, foram sempre tomadas medi­das das mais duras e impopulares, as quais vão dos pacotes laborais às contratações colectivas e con­tratos a prazo, passando pela contenção da “massa salarial”, pelos despedimentos e pelos sucessivos cerceamentos do “direito à greve”. Na prática, o PS não passou, pois, da “honesta gestão dos bens da burguesia”, como já Léon Blum dissera a propósito de 1936, ano da Frente Popular francesa. É o que todos os Partidos Socialistas, com os eurosocialistas à cabeça, fazem ou são capazes de fazer. Por tal razão, o “gado eleitoral”, cheio de ingratidão e de requintes de malvadez, castiga-os e entrega a con­dução dos negócios à AD (Aliança Democrática) e, depois, a um contabilista qualquer, como o severo e taciturno Cavaco Silva...

 

Digamos ainda, para concluir este quadro pouco dignificante, que se, num plano meramente político, os referidos partidos, embora com ópticas por vezes divergentes, deram o seu contributo para que o 25 de Abril não passasse de um golpe de Estado militar, seguido de uma derrapagem controlada, não se fosse para aí partir a caixa de velocidades; num plano militar, a aparente, mas ainda assim embrionária, indisciplina da tropa foi logo jugulada. Em primeiro lugar, por aqueles que lhe queriam impor uma “disciplina revolucionária” e transformá-la num sinistro e ascético “Exército popular”; em segundo lugar, pelos mandantes de Ramalho Eanes, obscuro general de Alcains, e do major Jaime Neves, rufia operacional dos comandos. A própria brevidade da escaramuça de 25 de Novembro de 1975, ante a passividade de toda a gente e muito em especial da dos potenciais interventores militares, é eloquente. Revela a que ponto toda a gente estava cansada, frustrada e desencantada e que, qualquer que fosse a ala do Estado e do Capital que ganhasse, quem perderia sempre seria a multidão dos explo­rados e oprimidos. Aos soldados rasos - que deviam ter despido os uniformes e, se necessário, virado as armas contra todos os seus superiores hierárquicos - só restava o regresso cabisbaixo à caserna, o corte de cabelo regulamentar, a palmatoada nas unhas e apanharem pelas trombas com o RDM (Regulamento de Disciplina Militar)...

 

 

Trinta e tal anos depois, sempre o mesmo panorama desolador e a tendên­cia para o "fixismo das espécies"

 

No essencial, tudo se passou de tal maneira como atrás dissemos e todo o quadro que pintámos à broxa larga se projecta tão inexoravelmente no panorama hodierno, que podemos inquirir com todo o cabimento, justamente porque não temos nenhum interesse inconfessável a esconder: trinta e tal anos depois da demissão e debandada de tanta gente, que realidade é que temos diante dos olhos? Será “o país das maravilhas”, que deu a volta à caixa de pirolitos da Alice e nos foi facultado, como reza a campanha publicitária das comemorações, pela “democratização, descolonização e desenvolvimento”, o que tomaria perfeitamente prescindível a Revolução Social, tal como os anarquistas a entendem?

 

No nosso entender, processos históricos completamente distintos e até antagónicos nunca podem desembocar em resultados semelhantes; a menos que se determine, se não científica, pelo menos democraticamente, por lei ou por decreto, que não há qualquer nexo entre determinado aconte­cimento e as suas causas, ou entre esse evento e as suas consequências, ou ainda entre os fins a atingir e os meios a utilizar - o que nos parece uma incongruência lógica e ética de todo o tamanho.

 

Seguindo o itinerário que nos é sugerido - e qualquer outro seria possível, mas não forçosa­mente pela ordem que nos é proposta, comecemos pela descolonização a que alguns chamaram “exem­plar”. Foi o produto de uma colonização não menos “exemplar”. Como Portugal fora o primeiro pais europeu a estender a garra adunca para África (logo no tempo do Infante D, Henrique) e o último de lá a arredar pé, as consequências de uma rapina multissecular só podiam ser terríveis. Ao tráfico de escravos para Portugal, Brasil, Estados-Unidos e ainda outros destinos, em que a marinha mercante lusitana foi exímia; às campanhas de “pacificação” e “limpeza”, começadas com sanha na Monarquia, e continuadas com furor durante a 1ª República e aceleradas sem vergonha nenhuma durante o fascismo pelo “intrépido” Exército português - só podia suceder uma descolonização canhestra, atabalhoada, cabisbaixa e envergonhada. As suas consequências - e nisso não há qualquer paradoxo - foram, ao fim e ao cabo, as da colonização: êxodo de centenas de milhar de brancos, mestiços e negros (o que para a esquerda autoritária era irrelevante); substituição, nas ex-colónias, do velho racismo branco por um igualmente abominável racismo negro;  eclosão de carnificinas e de guerras civis do género tribal, como resposta à imposição do Estado-nação de tipo europeu, dentro de fronteiras completamente artificiais traçadas à régua e esquadro nas mesas dos tratados de pilhagem internacional. E não é tudo. Enquanto as guerras civis em Angola e Moçambique, sem esquecermos a ditadura guineense e os massacres do feroz Exército indonésio em Timor-Leste, fizeram no cômputo geral muito possivelmente mais de um milhão de mortos, além dos inúmeros estropiados e das crianças, velhos e mulheres que à fome se vão extinguindo; os negócios dos Estados mercadores de canhões, das companhias petrolíferas e diaman­tíferas e dos países importadores de produtos agrícolas a baixíssimo preço vão prosperando, muito obrigado. Pois se consta que o próprio Estado português, democrático e de Direito, e alguns dos “heróis de Abril” , apesar da sua aparente inépcia comercial, amealham os seus cobrezinhos nas transacções que efectuam com quem actualmente manda nas ex-colónias! Tudo, é claro, a pretexto de “cooperação” e de “humanitarismo” ...

 

Outro dos grandes sucessos do pós-vinte e cinco de Abril, ao que parece, é a democratização imparável em que vivemos. O próprio termo democratização dá logo a entender, a vinte anos de dis­tância, que o processo é longo e provavelmente interminável, nunca se chegando a atingir a “democra­cia plena”, Corroborando a nossa asserção, alguns políticos desiludidos que nunca conseguem atingir os cargos cimeiros, falam desanimadamente de “degradação da vida democrática” ou de “governamentalização da vida política”, tentando condoer-nos; enquanto Mário Soares e outros profes­sores impenitentes, contentes consigo próprios e com a “vida” que levam, peroram interminavelmente sobre o “espírito cívico”, a “cidadania” e a sobrevivência “em democracia”. Coisas que pouco custam ao erário público!

 

O Zé-povinho, porém, parece cada vez mais alheio ao discurso, mais cábula e mais cínico. Compreendendo que a democracia representativa não passa de aritmética eleitoral (“Oh meu amigo, eu tenho trinta e tal por cento de votos correctamente expressos, enquanto você não passa de uma gor­jeta de doze por cento!”) e que toda a gente fica deprimida logo a seguir à queda na uma do último boletim de voto - incluindo os ecologistas que votam em papel reciclado -, sente também que ela não o põe ao abrigo de nada: nem da exploração e opressão quotidianas, nem sequer do regresso do fascismo e do nazismo. Não chegou Hitler ao poder, através de um processo eleitoral mais ou menos limpo, mais ou menos sórdido, como sempre acontece? E muito mais recentemente não ganharam as eleições legis­lativas russas a extrema-direita de Jirinovsky e os “comunistas”, constituindo uma frente unida que lembra os velhos tempos do “nacional-bolchevismo”? E mais recentemente ainda não foi o capitalista mafioso Berlusconi que ganhou as eleições legislativas na Itália, aliado aos arrogantes racistas da Liga Lombarda e aos ditos neofascistas de Fini (e que tanto lhe custou admitir a derrota mais recentemente), como se o fascismo fosse uma velharia susceptível de “mo­dernização”? E que pensar do revivalismo nazi, já considerado parte integrante da vida democrática, em países como a França e sobretudo a Alemanha? Ou do marginal caso português, em que, pela primeira vez, os “Nazi-skins” do Benfica, do Porto ou do Sporting dão a entender, com perfeita impunidade e até a colaboração mais ou menos discreta da polícia, que o fenómeno da extrema-direita começa a ter uma base social de apoio, muitas vezes oriunda das classes mais desfavorecidas e desesperadas?

 

Passando finalmente à última das vacas sagradas, a do desenvolvimento - já que ninguém tem mais coragem para falar de "socialismo" ou de "comunismo", os quais só têm sentido se forem liber­tários ou anarquistas -, digamos sem rebuço que o desenvolvimento pelo desenvolvimento faz parte do discurso meramente economicista, ou da verborreia contabilística do “cavaquismo”. Não nos elucida sobre o tipo de desenvolvimento - uma vez que nada nos diz sobre o fim da separação entre trabalho dito manual e trabalho dito intelectual, sobre o fim da separação entre o campo e a cidade, o centro e a periferia, e o fim da maldição do trabalho assalariado -, além de nada nos dizer sobre a incapacidade do capitalismo fazer algo que não seja destruir para reconstruir, ou vice-versa. A chamada "destruição criadora", de que falava Schumpeter!

 

No caso português, desenvolvimento quis apenas dizer entrada de dois milhões de contos por dia (oriundos dos fundos europeus) até ao ano 2000, acesso às alamedas do grande capital aos mais “afoitos”, auto-financiamento do Estado e da burocracia parasitária e liquidação dos sectores retar­datários; assim como exclusão, marginalização e desemprego para a grande massa dos “atrasados”, Dos que, ainda segundo Schumpeter, não passam do “circuito económico” para a “evolução”. Por algu­ma razão, as cadeias portuguesas estão cheias como nunca e vastos sectores da juventude são empurra­dos para a “economia da droga” - que nos pretende fazer esquecer a droga da economia - e outras for­mas de alienação por vezes irreversível.

 

Quanto às posições do CDS e do PCP sobre “soberania nacional” e “nacional-capitalismo”, opostas às posições mais eurocráticas e supranacionais do PSD e do PS, nunca nos entusiasmaram e, aliás, não passam de querelas entre' as partes que constituem a estrutura tecno-burocrática da sociedade autoritária e capitalista.

 

Posto isso e como, ganhe quem ganhar, são em geral sempre os mesmos que estão na mó de cima, só podemos provisoriamente concluir que o velho “fixismo” de Cuvier e dos outros naturalistas anteriores a Darwin - que determinava peremptoriamente que as espécies são sempre as mesmas, desde a “Criação” até aos nossos dias - parece continuar ainda vigente, embora as designações moder­naças mudem. Teria a sua graça e seria uma formidável ironia da História, se uma autêntica revolução libertária e igualitária, individual e colectiva, feminina e masculina, justiceira e emancipadora, quotidia­na e sintonizada, atirasse com todos esses ídolos e animais empalhados pela borda fora...

 

O colectivo da revista “A Hidra”

 pela “Carbonária Anarquista”

 

 

 

April 19

Anarquia em Espanha

MAS DE LAS MATAS E A SUA COMARCA

 

Publicamos um excerto do livro "Colectividades Libertárias em Espanha", de Gastón LevaL Neste livro,  descreve-se como, em várias regiões de Espanha, durante a Revolução de 1936-39, foi posto em prática o comunismo anarquista, através dum vasto movimento social organizado que pôs verdadeiramente em causa os alicerces do capitalismo e do Estado e que demonstrou que, ao contrário do que afirmam os vários defensores desta sociedade autoritária e exploradora, o comunismo libertário, ou anarquista, é perfeitamente viável.

 

 

Ao norte da província de Teruel, Mas de las Matas, com 2.300 habitantes, é o centro de uma comarca composta de 19 povoações. As mais importantes são Agua Viva, Mirambel (com 1.400 habitantes), La Ginebrosa (com 1.300). No princípio de Maio de 1937, apenas seis delas se encontravam integralmente socializadas; quatro estavam-no quase por completo; cinco, meio socializadas. Três estavam a organizar-se e uma última ainda hesitava.

 

Nesta comarca, a pequena propriedade encontrava-se bastante difundida, o que não favorecia a formação de sindicatos operários e o que explica por que razão as ideias anarquistas aí se tenham estabelecido desde o início do século. Embora a zona agrícola fosse relativamente rica, graças ao regadio, nalgumas povoações, privadas de água, a vida era, em geral, miserável. Tendo os grupos libertários de Mas de las Matas actuado quase sem interrupção, é a última geração dos seus elementos que agora está à frente da organização colectiva da aldeia.

 

Pode dizer-se que, em relação ao conjunto das povoações, a situação económica dos nossos companheiros de Mas de las Matas era, sem dúvida, a de privilegiados. Mas a revolução que puseram em prática tinha, principalmente, um carácter moral, pois colocavam a justiça acima dos interesses pessoais. São anarquistas cultos, modestos e simples. A sua personalidade revela-se no decorrer de uma conversa, assim como na obra que, modesta como eles próprios e, no entanto, sólida, estão a realizar.

 

Durante a monarquia predominavam aqui as tendências liberais. A República originou algumas mudanças, mas desiludiu a maioria da população, a qual se virou para a esquerda revolucionária. Foi assim que, em 1932, se formou o primeiro sindicato de tendência libertária aderente à CNT, e que, no ano seguinte - numa intentona

malograda - foi proclamado o comunismo libertário. A Guarda Civil acabou com este primeiro ensaio em menos de dois dias e o sindicato foi encerrado até à véspera das eleições de 1936, que não impediram que o ataque franquista se produzisse no mês de Julho seguinte.

 

Não houve luta e, não se tendo instaurado nem o fascismo nem a república, os nossos companheiros propuseram que se criasse a Colectividade Agrária de Mas de las Matas. A iniciativa foi aceite por unanimidade numa assembleia de carácter sindical. No entanto, nem todos os proprietários estavam filiados no sindicato. Tinha de se proceder com eles de forma especial. Assim se fez, estabelecendo-se uma lista de adesões voluntárias que, em quinze dias, reuniu 200 famílias. Durante a nossa visita, este número aumentou para 550, das 600 que compunham a totalidade. As que ficaram de fora pertenciam à UGT e praticavam a exploração individual.

 

A mesma norma é observada em toda a comarca. Tanto se pode aderir à colectividade como continuar a trabalhar individualmente a terra que se possui. Os vários graus de socialização realizados nas diferentes povoações provam que esta liberdade é efectiva.

 

Em nenhuma das povoações da comarca há regulamentos ou estatutos de colectividades. Politicamente, aplica-se um conceito anarquista integral. Todos os meses, a assembleia geral dos colectivistas indica à Comissão as normas a seguir. Nada da rigidez dos códigos, apenas a flexibilidade da vida e os acordos concretos sobre problemas também concretos.

 

Não se pode dizer que, por se verificar esta característica, tudo seja caótico. As nossas recordações de Mas de las Matas imediatamente nos fazem evocar a feliz Arcádia de que falaram os poetas. Era evidente a tranquilidade e a felicidade, no andar das pessoas, no aspecto das mulheres sentadas no passeio, tecendo e conversando placidamente diante das casas. É lógico supor que subjacente a esta tranquilidade existia uma boa organização da vida. Analisemo-la.

 

Foram constituídos 32 grupos de trabalho, de importância variada segundo as especializações agrícolas e as dimensões dos campos mais ou menos limitados pelo capricho do relevo. Cada grupo tem a seu cargo uma zona de regadio e outra de sequeiro. Reparte-se assim, equitativamente, o agradável e o menos agradável.

 

O regadio permite aos habitantes de Mas de las Matas obter hortaliças e frutas. Menos afortunados, os outros povoados apenas conseguem produzir cereais, sobretudo trigo, e azeitonas. Quanto ao trabalho, encontra-se distribuído por todas as colectividades, por grupos com os seus delegados; no cume - se se pode empregar esta palavra - está a comissão administrativa. E tal como os delegados de Mas de las Matas se reúnem semanalmente para decidirem quais os trabalhos a serem realizados, o mesmo fazem os delegados nas outras povoações.

 

Todas as colectividades da comarca coordenam, deste modo, os seus esforços.

 

Em Mas de las Matas não foi possível aumentar a superficie de terras cultivadas. As terras de regadio já eram utilizadas por completo. Mas parte dos terrenos de sequeiro, que até então tinham sido destinados para pastos, pode agora ser aproveitada para a produção de cereais, existindo nas montanhas pastos naturais suficientes para o gado se alimentar. Contudo, não se pode semear trigo, aveia ou milho depois de uma primeira lavragem da terra, apenas se pode prepará-la para o próximo ano. Trinta hectares já foram amanhados para esse fim.

 

Estes esforços intensificaram-se com o regresso dos milicianos da frente e é de temer, dizem os meus companheiros, que dentro de dois anos surja uma grave dificuldade: a de dar vazão ao excedente de trigo. No entanto... é difícil contrariar o seu entusiasmo, igual ao que encontro em toda a parte.

 

Mais fácil foi intensificar a criação de gado. O número de cabeças de carneiros e ovelhas aumentou 25%. O número de porcas para reprodução passou de 30 para 61; as vacas leiteiras que eram 18, são actualmente 24, e são albergadas num grande estábulo construído pela colectividade. O número de porcos é também muito superior ao anterior, mas, tendo faltado tempo para construir uma pocilga de grandes dimensões, compraram­-se animais jovens em grande quantidade, tendo sido distribuídos à razão de um ou dois por família. Quando se fizer a matança, a carne será repartida e salgada segundo as necessidades de cada lar.

 

Porém, a produção não se encontra limitada à agricultura e à criação de gado. Neste centro comarcal, da mesma maneira que em todos os centros mais ou menos importantes, desenvolveram-se actividades diversas: construção civil, fabrico de alpergatas, matadouro, alfaiataria, barbearia, padaria, etc. Cada uma delas constitui uma secção da colectividade geral e trabalha para todos.

 

Se uma secção necessita de comprar ou de consertar determinadas ferramentas, dirige-se, por intermédio do seu delegado, à comissão administrativa, a qual lhe entrega um vale para o delegado dos ferreiros que efectuam o trabalho requerido. O pedido é, ao mesmo tempo, registado no livro da secção da metalurgia. Se uma família necessita de móveis, dirige-se também à secção administrativa, que lhe entrega um vale para o delegado dos marceneiros. Sem este vale, que simultaneamente constitui uma autorização e um controlo do trabalho, este não seria efectuado. É deste modo que as actividades de cada grupo de trabalho e os gastos de cada família são registados.

 

Não se usa o dinheiro nem qualquer moeda local nas povoações da comarca. Assim se explica, sem dúvida, que a socialização do comércio tenha sido um dos primeiros passos dados. No entanto, não foi absoluta. Encontrámos alguns comerciantes obstinados, como velas que se apagam, no seu isolamento. Os armazéns comunais substituem, no seu conjunto, o antigo processo de distribuição.

 

Vejamos mais detalhadamente a estrutura de uma povoação colectivi­zada. Toma-se difícil dar por escrito uma ideia suficientemente elucidativa deste amplo movimento que põe em prática a socialização agrária. Em Mas de las Matas, como em cada uma das centenas de povoações organizadas colectivamente, a nossa atenção fixa-se em letreiros onde, sobre as cores geralmente vermelha e negra, e marcadas com as iniciais CNT-FAI, se lêem inscrições como as que citamos ao acaso: Armazém Comunal, Matadouro Comunal, Correaria Colectiva, Carpin­taria Colectiva, Padaria Comunal, Alfaiataria Colectiva, Ferraria Comunal, Fábrica Colectiva de Bolachas, etc.

 

Aqui, deparamo-nos com o Armazém comunal de alimentação e ferragens, máquinas e outros objectos. Além, com o Depósito comarcal de adubos químicos e de cimento, e um Armazém de tecidos e vestuário, muito bem abastecido. Na loja de um antigo fascista desaparecido, cacique da povoação, distribuem-se roupas aos habitantes do lugar e às colectividades da comarca. E eis aqui a secção de abastecimento, na qual se entrega aos individualistas os vales por eles solicitados, e onde se regista num ficheiro o consumo de roupas feito por cada família.

 

Nesta destilaria extrai-se álcool e ácido tartárico do bagaço de uva forne­cido por várias povoações, que em conjunto constituem a Comissão Administrativa da fábrica. Esta comissão reúne-se periodicamente. Entramos nesta fábrica e mostram-nos as novas instalações, construídas para se aumentar a produção de álcool de 96°, necessário ao tratamento dos feridos, nas frentes de luta.

 

Na alfaiataria, operários e operárias cortam e cosem as roupas para os camaradas de todas as colectividades da comarca. Prontos para a confecção, os cortes estão classificados e distribuídos por várias estantes. Cada um tem uma etiqueta na qual está inscrito o número e as medidas correspondentes do indivíduo a que se destina.

 

As mulheres vão abastecer-se de carne num bonito estabelecimento revestido de mármore e de mosaico. O pão, que antes se fazia em casa, sem comodidade, duas vezes por semana, é agora amassado diariamente nas padarias colectivas.

 

No café, todos podem tomar dois copos de malte, dois refrescos ou duas gasosas por dia.

 

Visitemos os arredores do povoado. Vamos encontrar os viveiros onde dois milhões de plantas hortícolas são esmeradamente preparadas por uma família que,  anteriormen­te, ganhava muito dinheiro com a comercialização desta produção, e que aderiu à colectividade desde o seu início.          As        plantas serão transplantadas para a horta local ou de outras povoações.

 

Nesta oficina de costura, confecciona-se roupa de mulher. Além disso, há raparigas doutras povoações que aqui vêm aprender para, mais tarde, coserem a sua roupa e a dos seus filhos.

 

Um letreiro chama-nos a atenção: "Livraria Popular". Trata-se de uma biblioteca em cujas prateleiras se encontram seis, oito, dez exemplares de Fábricas colectivizadas de pão cada um dos livros de sociologia, de literatura, de divulgação científica que se pensa ser útil colocar ao alcance de todos, inclusive dos individualistas. Noutras estantes, mas em maior número, estão livros para crianças, obras de todos os tipos: história, geografia, geometria, aritmética, gramática, livros de contos e narrativas, novelas, cadernos e admiráveis colecções de desenhos, cujos modelos estão perfeitamente ordenados e organizados segundo as normas mais recentes.

 

Nesta colectividade geral, cada secção trabalha para as restantes; os esforços unem-se, o espirito de solidariedade preside a todos os empreendimentos. Contudo, tem-se a preocupação de não matar a iniciativa individual, a qual, de resto, pode existir desde que não se dedique à exploração de outrem. Isso iria contra o temperamento espanhol, no qual estão amalgamados a vontade pessoal e um profundo sentimento do dever. Assim, deixou-se que cada família tenha um pedaço de terra onde cultiva o que entender, o que permite o livre consumo de hortaliças. Os outros alimentos são distribuídos segundo as reservas disponíveis. Homens, mulheres e crianças recebem a mesma quantidade, estipulada pelas assembleias da colectividade, e podem, sempre na medida permitida pelas dificuldades económicas que a Espanha atravessa, trocar livremente um artigo por outro. O racionamento não constitui, portanto, uma regulamentação rígida, que obrigue a aceitar ou recusar uma coisa, sem compensação.

 

Nos primeiros anos, a proporção do consumo ­alimentação, vestuário, calçado, etc -estava assinalada num cartão por família, mas a seguir decidiu-se utilizar a caderneta standard adoptada no Congresso de Caspe e editada pela Federação Regional de Colectividades.

 

Foi também limitada a distribuição de roupa, máquinas e outros bens adquiridos na Catalunha, na medida em que, apesar de haver bens suficientes para trocar, é necessário um grande esforço para apoiar a frente de guerra. Isto não implica, porém, que se tenha suprimido completamente a distribuição de roupa. Para obter a roupa de que necessitam, os colectivistas têm agora à sua disposição recursos superiores, em regra, aos de que dispunham ante­riormente. Como exemplo, tomemos uma família composta por pai, mãe, um filho de idade compreendida entre seis e catorze anos, e um segundo filho com menos de seis anos de idade. A esta família é anualmente atri­buído um conjunto de bens equivalentes, em valor­-moeda, a 215 pesetas: 75 pesetas para cada um dos adultos, 40 para o filho mais velho e 25 para o mais novo. Quantas famílias camponesas de Espanha poderiam gastar, anteriormente, esta quantia anual em vestuário? E não nos esqueçamos que este cálculo por família não impedia que cada família escolhesse o seu equivalente em roupas de acordo com as preferências de cada lar.

 

O médico e o farmacêutico também fazem parte da colectividade, estando as suas actividades ao serviço de todos. Vivem em condições idênticas aos demais, embora disponham de recursos específicos para poderem continuar a estudar e adquirir publicações, revistas, livros e outros materiais necessários ao seu trabalho.

 

Além da Biblioteca Pública, que empresta livros ao domicílio, existem a biblioteca do Sindicato e a das Juventudes Libertárias. A escola é obrigatória até aos catorze anos. Uma escola para 40 crianças, que até então não tinham tido a possibilidade de estudar, foi instalada num conjunto de "casas agrícolas" [«masías» no original­ N. T.]. Em Mas de las Matas foram preparadas duas salas de aula para poderem receber, cada uma delas, 50 crianças com idade inferior a oito anos, cuja educação foi confiada a duas raparigas que tinham frequentado cursos superiores numa cidade cujo nome desconhecemos. Esta inovação teve também como objectivo a libertação mútua de mães e filhos durante várias horas por dia.

 

Os espectáculos públicos são gratuitos, tanto para os colectivistas como para os individualistas.

 

Inclusive quando, por ordem expressa do governo, o Conselho Municipal foi reconstituído, a alma da povoação continuou a ser a colectividade. O próprio sindicato tornou­-se um organismo quase inútil, foi quase totalmente esvaziado das suas antigas funções. O novo organismo tomou-se predominante na estrutura da comarca. Vejamos agora como funciona.

 

O Comité Comarcal, que reside em Mas de las Matas, foi nomeado por uma assembleia de delegados de todas as colectividades. Tem como missão coordenar os esforços na produção, organizar o trabalho à escala geral sempre que seja necessário, tratar das relações com as outras comarcas ou regiões e organizar as trocas.

 

Segundo as normas estabelecidas em toda a região de Aragão, nenhuma colectividade pode negociar por sua própria conta. Com esta norma, procura-se evitar a concorrência imoral e centralizar as aquisições de produtos, que poderão, assim, ser obtidos longe da colectividade, nas próprias fábricas, em melhores condições de qualidade e de preço. Ao mesmo tempo, isto permite intensificar as relações económicas com a Catalunha e o Levante.

 

Cada colectividade agrícola comunica ao Comité Comarcal a lista e quantidade de produtos excedentários de que dispõe, e pede, ao mesmo tempo, aquilo de que necessita, podendo consultar, em Mas de las Matas, o registo contabilístico onde fica anotado o duplo movimento de produtos e bens.

 

O Comité Comarcal sabe, com exactidão, quais são as reservas de cada povoação, em azeite, vinho, trigo e carne. Se uma delas não tem vinho em quantidade suficiente e o pede, o comité contacta a povoação que o pode disponibilizar. Se outra povoação necessita de azeite, o comité põe-na em contacto com a povoação que estiver em condições de satisfazer o seu pedido. As povoações que pediram determinados produtos darão outros em troca, cuja equivalência é calculada em pesetas, segundo os preços da altura. Por outro lado, se a povoação que forneceu o azeite não necessita do vinho dado em troca, pede ao comité outros artigos que este entrega, armaze­nando o vinho em Mas de Ias Matas, para ser trocado mais tarde, dentro da comarca ou fora dela. Em suma, o Comité Comarcal é o órgão regulador da distribuição entre povoações.

 

Não há qualquer dificuldade na aplicação deste sistema geral de compensação. O único inconveniente poderia residir em reminiscências do espírito capitalista e proprietário, segundo o qual uma povoação que enfrente grandes difi­culdades por razões estranhas à sua vontade deverá atravessar um período difícil mais ou menos longo. De maneira nenhuma. Acaba de acontecer algo que pôs o sistema à prova. As capacidades económicas de Seno e de La Ginebrosa foram, este ano, anuladas por uma tempestade de granizo. Ficou tudo, ou quase tudo, arrasado. Em regime capitalista, isto teria significado miséria e fome, com emigração dos homens para a cidade. Num regime no qual a economia estrita predomina sobre a solidariedade, as dívidas e os empréstimos contraídos para fazer frente à situação teriam condenado essas populações à miséria durante anos. No nosso regime de solidariedade libertária, a dificuldade ultrapassa-se com a ajuda-mútua, o contributo, o esforço fraterno de todos. Obteve-se tudo aquilo que era necessário para poderem voltar a semear, plantar e colher, e para viverem enquanto os frutos da terra não brotassem de novo, o que permitiu resolver o problema sem hipotecas ruinosas que teriam comprometido o futuro.

 

 

Esta revolução moral mereceria uma análise mais demorada, porque o mundo novo que se criou e se continua a criar fez nascer um espírito que exalta os sentimentos mais nobres que o coração do homem pode albergar. Isto traz-nos à memória algo singelo, mas significativo, que nos aconteceu precisamente em Mas de las Matas. Tínhamos ido ver, fora da povoação, uma piscina que os rapazes e raparigas estavam a construir num local profundo, ladeado, dum lado por uma casa particular e do outro por uma elevação pronunciada do terreno. Lá no fundo, os nossos construtores atarefavam-se alegremente, manejando pás e picaretas. Na nossa frente, na parte mais alta, havia um caminho que não podíamos ver mas cuja existência adivinhámos quando vimos surgir três homens, três agricultores de alpergatas e enxada ao ombro, caminhando com passo firme, sorridentes e confiantes. Viram-nos, como também viram os rapazes mais abaixo e, andando sempre, levantaram a mão amistosamente, saudando-nos com voz forte e vibrante, com a convicção que parecia sair dos seus peitos: «Saúde, companhei­ros!». Respondemos: «Saúde, companheiros!» e o mesmo fizeram os jovens que estavam mais abaixo. Essas duas palavras significavam que éramos todos irmãos, que a mais plena confiança existia entre nós, a confiança de cada um dos homens na sociedade, nos seus semelhantes; que tinha desaparecido aquilo que nos opunha uns aos outros; que já não existiam rivalidades, antagonismos, temores, hipocrisias, invejas, falsidades, ardis. Que éramos, todos, verdadeiramente irmãos... A caneta não consegue exprimir a sonoridade vibrante dessa meia dúzia de sílabas: «Sa-ú-de com-pa-nhei-ros!», tão cheias de um conteúdo novo, intenso, cálido, que continuam a ressoar-me nos ouvidos, com o fervor que guiava os construtores do mundo novo.

 

Gastón Leval
 
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